2011/08/29

baby:
deixa de ler — só assim deixarei de escrever. afinal, qualquer enunciação será munição contra mim. por isso, melhor calar — e não expor as exigências, que nem são tantas assim. pensando bem, talvez eu não estivesse deste jeito agora se me fizesse exigente antes — sempre. porque eu quis todos aqueles quereres miúdos & alternados — comedidos & disfarçados. difícil é não olhar pra trás, temendo encontrar a ternura sombria da história.

2011/08/25

baby:
eu não preciso dizer que foi você que não quis que eu ficasse. na tua cama. na tua casa. na tua vida — na tua história. porque você sabe. sabe bem que eu quis ficar — almoçar e repetir o desjejum no cercado. por isso, eu parti. preciso encontrar um colo em que depositar o peso do mundo.

2011/08/22

baby:
você está só, mesmo não estando sozinho — e eu sei como é isso. pinheiro bojudo, casa cheia, mesa posta [talheres de prata & taças enfileiradas sobre a toalha de linho] — e a solidão instalada, abastada. ainda nos fartamos com ela, milionários. mas o tempo, babie, não deixa de passar. já não és mais menino — não somos. e, com ele, aprendemos que os presentes são apenas falsos confortos. porque o que se quer é aquela alegria fina que não está nos mercados, nos balcões das feiras, nem no expositor recém-montado.

2011/08/18

baby:
o meu querer não move o mundo — nem comove você. por isso, o olhar tombado, de pregas & pregas. a noite foi arrastada. porque eu fracassei, babie. apesar de dar colo à dor — e medicar a solidão. agora você não vai mais me saber sempre ali — ao alcance da mão. não esperarei pra sair da cama na hora que eu quiser. voarei pra bem longe — para além das janelas de vidros estilhados em que não há mais migalhas, nem pássaros, nem nada.

2011/08/15

baby:
vou encerrar a correspondência — não quero mais. porque eu esperei, babie. esperei você dizer que eu estava errada — por não enxergar. esperei pedir que ficasse, que esvaziasse a mala logo ali — pra buscar o que faltava. esperei o amor falar. o medo calar. o céu se abrir. a culpa ruir. porque achei que o amor vencesse tudo. feito erva daninha — no arado.

2011/08/11

baby:
meu coração ainda vai deixar de ser bobo. de desenhar uma realidade que não consegue existir. e de te enxergar em cada esquina. porque os desencontros não me machucam mais — eles fazem sangrar as cicatrizes. e, dessa vez, baby, doeu tanto que eu senti medo de secar — de me esvaziar por completo da docilidade para a qual quis tua devoção.

2011/08/08

baby:
avanço no tempo, volto — e nada muda. é natal, e eu te sinto distante — outra vez. a 600, 900 quilômetros de mim. de longe, me colocas bem perto, sentes a falta, me imaginas em vestes e olhares. não estás feliz — de novo, mas insistes. romper a bainha afetiva demanda abrir mão da história, abreviar o que está em sobreaviso — dividir esforços & bens. colocar-se do lado de fora do lar — depois de abandonar a mesa & a cama.

2011/08/04

marujo:
não escondo que quero ser mãe — ocupar o bercinho, me ajeitar no barco, remar. você me impregna da ideia [you want — to get pregnant]. sim, é você que alisa o instinto, projeta o amor, me desassossega. mas demoraria ainda, eu sei. uma vida. outra vida. esta vida. tudo que tenho. esse amor endereçado. porto de cicatrizes. naufrágio.

2011/08/01

baby:
a coragem te escapa quando se trata de mim — de nós.
das voltas não planejadas.
dos sonhos envelhecidos na casca. porque a obra-prima nem foi gerada — e eu não saberia dizer se será. o cercado é pequeno demais — e amanhecer fora do berço seria, aos poucos, morrer. aprisionada.