2010/03/28

baby:
lá vai ela. jovem, bêbeba e bela. já não sabe se fez bem em largar tudo. já tem dúvida se lhe sobra alguma hombridade. ainda ontem, desistiu de querer ser amada. ainda hoje, abriu mão de querer voltar pra casa no fim do dia e ter um ombro em que deitar a cabeça cansada, o corpo cansado, a vida cansada. porque a morte é bem esse sol de trevas que não sabe se termina ou começa todos os dias.

2010/03/25

baby:
você me abastece — de vida. enquanto isso, a fertilidade rebola, desenvolta, pedindo passagem — está no cio, pronta para abocanhar: vai um bebê aí? agora que já sabe o que eu sinto, falta reconhecer o que o mantém em mim, circunvizinho. e não vale dizer pra si o que costuma dizer pra mim — nem você acredita, e todo esforço é vão... a menos que saiba esconder o amor — por ainda mais tempo.

2010/03/22

baby:
segunda-feira — sem ti. voltei a sentir aquele medo de estar amando errado. será que isso existe? ao mesmo tempo, sinto que há muito para viver — juntos. um muito que exigirá reencontros — dois corpos, outras vidas. e é tudo que posso afirmar neste tempo que é do hoje — neste agora compartilhado em que o calor me consome, sem chamas.

2010/03/19

baby:
me cansei do castigo que é viver. do trabalho que dá me colocar de pé todos os dias. não tenho mais forças — o viço se foi. e já deixei de ser só uma menina vivendo de amores inventados. não sei existir para além da máscara sutil-intensa que, cínica, ensaia a próxima mentira.

2010/03/16

baby:
vou renascer depois de amanhã — me purificar, abrindo mão do lixo e do luxo. não é aqui que quero estar, entre papéis amassados e embalagens retornáveis. espero que ainda me sobre outra opção, nem que seja um fio colorido roubado daquele jogo de luzes nascido no meio da chuva.

2010/03/13

baby:
já posso sentir o beijo de língua gelada e sabor de cupuaçu — a saudade antecipa o gesto. sei que foi bom pensar em mim, revirar a lembrança e simular situações. o exílio favorece o amor. afinal, somos iguais — na ternura e no silêncio. sabemos saudar a distância, esticar o desejo, ponderar a dor. por isso, me seguro no choro escondido. te acarinhar é questão de tempo.

2010/03/10

baby:
é prova de amor que ainda falta? porque só pude pensar nisso depois daquele telefonema — que a tua certeza depende da minha certeza. preciso derrubar o enigma. mas, antes, uma coisa: a espera não é opcional — birra ou teimosia. esperar, neste caso, é involuntário. porque o amor acontece — não pede licença, atropela. e já passei da idade de brincar com certas coisas, estender o bico e me alongar na tristeza. quero muito viver.

2010/03/07

marujo:
a sutileza nasceu com você — e cruzou o oceano: pra me encontrar. bastou atracar no cais. porque é pra lá que eu vou, quando a tristeza aperta — e eu me sinto sem asas, aprisionada na própria solidão. apesar disso, sinto medo de colocar sobre você todo meu peso — das coisas muito duras que guardei —, manchando a leveza que nos une, para além das sangrias imediatas.

2010/03/04

baby:
meu coração bate naquela velocidade de espera — medida em . assim são os corações das meninas tristes. sopro nenhum é capaz de alterá-los. qualquer subida no ponteiro é providencial — depende do encontro. porque corpo algum é capaz de mentir, da mesma forma que amor nenhum tira férias. entendeu agora por que a saudade só faz crescer? aprendi a gostar do canalha que serve o prato e escurece a taça com vinho.

2010/03/01

baby:
a poesia sai das mãos do velho barbeiro. é santo, tocando o acordeão — pra freguesia [que não chega]. dia de chuva é assim. dá preguiça de viver. fecho os olhos. a rua brusque fica pra trás. é hora de acender velas para o senhor. então tomo a rainha das curvas, abano para o papagaio de bico erguido na beira da estrada e vejo que ele sorri. logo estarei com palito aceso na mão, iluminando milagres rogados no alto do monte. tua cidade já é minha também.