2010/02/25

baby:
prefiro você à imagem do espelho em frente — sou melhor quando você me vê. e pouco importam a ocasião, o lugar, o tecido que o corpo carrega. posso estar nua, às voltas pela casa vazia, ou vestida de gala, a me equilibrar sobre o salto agulha — é o teu reflexo que procuro, a sombra comprida, o abraço [envolvendo o dorso]. repete o meu nome agora? quero me ver nos lábios teus, me ouvir nos teus olhos e me sentir reconfortada — depois que a lágrima percorrer o ventre abaloado e evaporar, dando fim à tristeza.

2010/02/22

baby:
pareceu tão real — sentir aquele beijo suave na nuca, adiantando o encontro das mãos —, que nem foi preciso olhar para trás. ninguém faria igual. você fica linda com o cabelo preso no alto deveria usar mais. eu sorri — enquanto ouvia você. a gente dá certo no improviso — eu pensei, ao som de todos os silêncios. porque não haveria momento melhor, gesto mais nobre, alegria maior. em noite de festa, com roupa de festa, a pompa atípica [de requinte e sofisticação] emprestava a tudo aquele ar inventivo, de um sonho que se quis tocar no espaço público — sob olhares e delírios.

2010/02/19

baby:
março está quase aí — e logo chega dezembro. tenho bode de ano par — uma coisa meio baixo astral, distante de tudo que é teu. não sei explicar. é como se as luzes se apagassem por conta, e sobrasse apenas um silêncio indolor — paralisante. por isso, preciso de ti pra me fazer sentir que tudo vai ficar bem amanhã — e depois. daquele equilíbrio que me cobre macio quando a noite termina — e me devoras, com teus olhos de fogo.

2010/02/16

baby:
você consegue deixar tudo ainda melhor — cada pequena alegria, e eu não resisto. tá, tudo bem, meu bem, é só mais um blefe — então, esquece! sei que não devo me colocar à frente das coisas mudas — sob pena de interferir na sobrevida do amor. é por isso que as cartas às vezes parecem perder a sequência e não fazer muito sentido. a verdade sobrevive melhor atrás da porta, debaixo do armário, a quilômetros de você.

2010/02/13

baby:
é de você que eu preciso — pra curar a minha dor. o nó no peito. e aquela angústia que insiste em me atormentar — na falta do abraço teu. nunca me senti assim antes — tão nada, tão perto do fim do mundo. acho que vou fumar um cigarro, voltar a ser clarice e escrever até sangrar os dedos — mas duvido que seja capaz. ainda ontem, te escrevi uma carta linda — dessas com assuntos que não envelhecem nunca, mesmo que demorem um pouco a chegar ao seu destino. depois, a dobrei como um aviãozinho — antes de atirar, pela janela, com todos os meus segredos.

2010/02/10

baby:
de repente, tudo ficou ainda mais escuro que de costume. difícil de engolir — encarar [decantar]. acabo de acender outra vela de sete dias e já perdi a conta de quantas se foram. não encontro saída e me recuso a ser vista como cópia de outro alguém — apesar das semelhanças. porque você me conhece. e, por mais que eu me prive de dizer, sabe que não abri mão de sentir isso que sinto por você — um bem-querer que supera qualquer outro e se quer mais.

2010/02/07

marujo:
silêncio também pode não ser tristeza — quando se quer apenas silêncio. um silêncio turvo, que guarda a palavra, preserva a saudade, faz a vida pausar [por um instante, alguns dias ou semanas] e depois virar isso que atende por greve afetiva — a economia dos sentidos. entendeu agora? talvez um dia eu possa explicar como tudo funciona aqui dentro. está bem que seja assim? porque só sei ser com a minha loucura, com esse esoterismo que causa espanto em você e depois que a preguiça acaba [timidamente] — pra mostrar que tudo que fica, antes e além do gesto, é amor contido.

2010/02/04

baby:
não se pode apagar o desejo, o sonho sonhado, aquele beijo marcando o intervalo do sono depois de dizer eu gosto de você. a vida tem dessas coisas — e não é possível voltar atrás [da laranja doce mergulhada na boca, do suspiro seguido do gozo, da memória que o corpo grafou]. enquanto você evita o domínio, eu ganho terreno [na intimidade] e adoto você — a melhor moldura que o corpo poderia querer.

2010/02/01

baby:
não fosse a pequenez do corpo, eu seria uma grande chata — com direito a notificações por chatice, eu sei. é possível que a paixão deixe as pessoas assim — muito no sense, fora do eixo. digo isso porque acabo de ler um texto lindo do leminski que falava de amor de um jeito inteligente, que eu não saberia reproduzir. foi quando voltei a pensar em merecimento [palavrinha plena de significação, mas sem correspondente no plano real] e que a melhor alternativa é ainda o recolhimento. somente nele consigo abraçar o silêncio e ser ainda melhor — uma pequena, simplesmente, acuada no final do jardim.