2010/01/29

marujo:
meu ciúme não é bobo — tem aquele sabor de goiabada enrolada no queijo, de tempero colhido na relva, de neném saído do banho. me fiz entender? é um refinamento simples, combinado — nada que desmereça o amor ou o faça renunciar. porque preserva a doçura, a leveza existente, aquele cuidado macio from soul mate — não é preciso temer [acelerar o motor e se adiantar no retorno pro mar]. de verdade.

2010/01/26

baby:
a vida me trouxe você — e não era pra ser diferente. porque tudo acontece no seu tempo — nunca antes, nunca depois. um roteiro clichê. entende agora a falta de efeito das despedidas — ensaiadas, forçadas, forjadas no espaço cênico? uma história assim não admite golpes emocionais — não há vilão que prevaleça ao amor.

2010/01/22

baby:
jamais pensei que fosse simples adoecer — sobretudo agora: distante de ti. nesses casos, sei o que é preciso fazer. a vida me ensinou a sobreviver — a evacuar a dor do corpo ainda febril, sacudindo o delírio e o pó. nada que umas compressas geladas não resolvam, não é?! jogo de cena seria pedir que me cuidasse macio — remetendo aquele amor bumerangue que, um dia, inventei.

2010/01/19

baby:
não queira saber como se sente uma boneca esquecida — qualquer descrição soaria menor. suspeito até que uma descida ao inferno não doesse tanto. mas preferi abraçar o silêncio a despejar palavras, numa histeria impensada — sem espantos ou melodramas mal encenados. odeio teatro amador. e as mulheres falam demais, né?! vai ver preciso aprender a dominar o privilégio, entregar a última carta e encerrar uma história que finge não ser.

2010/01/16

baby:
deixa de graça & bobagem. aquela não era minha última carta — definitivamente. e o motivo é tão óbvio: ainda há muito a ser dito [extraído — da manga, da cartola, do repertório afetivo]. além disso, eu sou da palavra — esqueceu? e não acho que elas custem caro. posso até escrever anticartas, elidir emoções e ranhuras emblemáticas, mas não deixarei de dizê-las. não se trata disso. gosto de envelopar este amor que me estremece, de me sentir cada vez mais forte diante do gelo e me impor resistência. as cartas ajudam nisso — na maturação da espécie, no exercício da espera, na recomposição emotiva. nesta noite, me deitarei sobre a grama, pra espiar o céu — porque a insônia pode ser boa.

2010/01/13

marujo:
às vezes, sinto que sobra medo — para além da ponderação. prefere as águas calmas da baía aos imprevistos em alto mar? é difícil aceitar, mas consigo entender. mesmo para um navegador experiente, encarar o oceano é sempre uma tarefa arriscada — um desbravamento. e, lá no fundo, aprendi a lidar com isso também. a entender os pés fincados no chão e o apego às escolhas que, um dia, seriam eternas — apenas não deixo transparecer. faz parte do jogo — daquela certeza tímida que ainda me faz insistir, resistir, apostar.

2010/01/10

marujo:
a renúncia é uma forma de amor — diferente de todas as outras. um exercício cênico — o gesto maior. é quando o desejo se abriga em si, contido — distante de qualquer tentação. afinal, aprendi contigo a usar força, a preferir sofrer em segredo e a me equilibrar diante do medo — sem ser engolida. e é isso que direi às pessoas, quando a verdade exigir — e eu deixar de menina ser. neste dia, a eloquência estará armada — de pé sobre esse amor que então flutuará [em paz].

2010/01/07

baby:
às vezes, acho que você entende tudo errado. eu não planejei nada, nem estabeleci prazos ou distribuí notificações — eu vivi. a proximidade. o glamour. cada minuto contigo. por isso, quis o extrato — que você me deu. o dna da vida — nosso destino. um menino. sim, el niño — um pequeno você. porque o universo merece mais [de] você — a doçura celeste, o brilho incomum, o magnetismo. mas o erro foi meu. na minha insistência molhada, desejei, só, aquela felicidade clandestina — que alguém me levou, entre as chupetas, os pirulitos e a voz inaudita [que tanto quis conhecer].

2010/01/04

baby:
eu também lamento o extravio das cartas. mas ser missivista é correr o risco — não há rascunho que recupere a palavra dita, lançada sobre o papel com tinta. escrever é improvisar, edificar o pulso e o impulso, sangrar até a vertigem — e continuar. e nem o trânsito epistolar foi preservado. roubaram-nos tudo — a atmosfera da troca, o direito de amar em segredo, o jogo das cifras. na falta de mais de mim, fique com o que salvou do amor nosso e não me lance fora — feito aquele amor atirado ao lixo, num arremesso de dar dó.

2010/01/01

baby:
lancei ao mar a rosa minha — gerada no teu jardim. o primeiro gesto do ano — a oferenda sagrada à iemanjá, no berço do mundo. uma homenagem ao amor — em sua forma possível —, com poucos espectadores. a simplicidade tem dessas coisas: impulso para rezar baixinho e contornar, descalça, a bainha que o mar costura na terra. e nem parecia estar só. sentia ali a tua presença. uma espécie de calor sobre o ombro, enquanto fingia abraçar-te pela cintura, depois de tocar as taças e brindar ao encontro — que nunca finda.