2009/10/30

baby:
eu posso tão pouco... não, eu não posso um pouco sequer — o mínimo para me sentir viva. e não vou me forçar a aceitar imposições. rezar a cartilha alheia. revisar a bula da vida. por hoje, eu só quero um abraço — um abraço de vida toda [pra ficar guardada dentro dos teus braços]. parece muito? bom, talvez devesse começar de novo. esta carta, por exemplo. escrever assim: eu quero tudo — e nada posso. mas um dia eu aprendo a burlar o inferno. a instituir a paz. e a fazer vibrar, fora de mim e daqui, isso que me consome, em chamas, pouco a pouco.

2009/10/27

marujo:
não sei me manter distante. cortar a correspondência. te evitar. no fundo, tenho medo que isso se perca — aprisionado num tempo outro —, embora entenda a inércia. tendemos ao sofrimento por já conhecê-lo de cor. topar com o mistério demanda coragem — um quê de atrevimento & desatino. por isso, escrevo mais esta carta. o corpo precisa falar — disso que só existe em ato. sentiu o grito daí? foi a saudade. preciso voltar a deitar meu rosto no ombro teu, enquanto a rede balança e a gente ouve o canto do mar.

2009/10/24

baby:
sei que o jeito evasivo faz parte do jogo. do lance de dados — pelo amante errante, em alto mar. por isso, não venha dizer que não é proposital — que é nada, esta espuma. a encenação não convence — o desapego aparente, a alteridade roubada do navegador. taurinos adoram a propriedade do corpo, do beijo, do gozo. o labor da posse. o status de mentor — para além do que os arcanos revelam, entre o enigma e o acaso, na disposição aleatória das cartas.

2009/10/21

baby:
a menina cresceu — nas tuas mãos. assumiu seu lado fêmea & felina. desafiou virtuosismos de gênero — e agora quer mais. mais que o lugar de destaque no topo da estante — do objeto decorativo no espaço privado. porque a boneca aprendeu a viver. e precisa do teu olhar pra não se sentir esquecida — a objetiva do amor, que veste o seu ser e o faz enxergar mais do que é capaz.

2009/10/19

baby:
relaxa — o mundo pode esperar, e eu também. a rosa lá fora, o lazer no mar, a vida organizada. porque não há outro lugar em que eu queira estar mais do que aqui — na tua presença, enquanto o dia amanhece [e você insiste nisso que costuma chamar falta de plenitude — o tu possível na babel em que vem se transformando a vida e os laços teus].

2009/10/16

baby:
certas pretensões femininas não combinam comigo — e encoleirar o macho é uma delas. por isso, não te imponho a minha presença — nem pretendo lançar limites sobre ti. prefiro subvertê-los contigo. extrapolar, um a um — numa avalanche [de cartas, as 78 do tarô]. pois quero mais é inventar limites contigo, recriá-los na falta — e desfazê-los a seguir. porque desejar é romper com tolhimentos e privações. é dar abertura à mobilidade — às idas e voltas do amor.

2009/10/13

baby:
vem, toma o pequeno nu. acomoda-o num dos braços, assim, bem perto do peito teu — também nu. agora, esqueça que estou aqui. quero eternizar o amor. celebrar o gesto, você. ele — e ele em você. e imprimir o laço. vocês — minha vida. pra ninguém duvidar de que o amor existe. bem perto daqui.

2009/10/11

baby:
me ensina a documentar o gesto — a rosa? o improviso amoroso — você dentro dele? a intuição diz que é possível. a razão sinaliza que não. e agora?

vontade de chorar. agora. e a seguir. e outra vez ainda. chorar de novo. reproduzir a lágrima que escorreu pelos lábios ontem e antes de ontem. e, com ela, me igualar à tristeza lá fora. que lava a cidade, inunda ruas e calçadas e afoga o que restou do verde plantado na terra. feito a rosa minha — no teu jardim. bela. intuitiva. efêmera.

vontade de chorar. por não entender por que, assim, você fica ainda mais em mim — longe de mim. triste. só e acompanhado — a um só tempo: agora.

2009/10/09

baby:
você se cobra uma perfeição e uma completude que, no fundo, nunca vão existir. por uma razão singela até: não é possível — nem necessário, assim como tocar o céu. o encanto existe. ali está — simplesmente. por isso, não se subestime. amar é atravessar o mistério. deixar-se por ele tocar. e aceitar o que não se explica. a repetição dos gestos. o volver dos corpos. o espaçar da saudade. ser par — ter par. e dar-se a conhecer — a cada dia um pouco.

2009/10/06

baby:
ficará tudo bem, se eu me for — e não voltar? porque eu quis ficar. participar da vida tua. ouvi-lo dizer, numa madrugada bem fria, antes de desligar o abajur acomodado na cabeceira enjambrada: — fica, por mim, por nós. mas está pesado viver. testemunhar o passado voltar. e sobrar, a poucos metros dali, como uma boneca esquecida. essa não é a minha vontade — nem a tua. ou isso que chamam: o destino, acho.

2009/10/04

baby:
vontade de te escrever uma carta sem fim — dessas que duram a vida inteira, dão a volta na quadra, diversas vezes, sem se cansar e se desdobram aos poucos, no dia-a-dia, folha a folha. o fim do exílio é a porta do céu — entreaberta. leve e misteriosa. excitante nos escritos que gera — no histerismo meu. pois é preciso reconhecer: não sei separar realidade e invenção — e a solução pra isso que me assombra talvez estivesse aí. porque o amor sabota a razão, prioriza a invenção e dilui todo o resto. esse excedente, sempre menor — e sem importância. viver você é escapar a qualquer arrependimento —
pra desejar a falta.

2009/10/01

baby:
eu sabia dos laços — desde o início. só não imaginava que laços pudessem ser nós. essas amarrações que costumam não se afrouxar nunca — a menos que [não, eu não preciso dizer]. quase sólidas, carregam mais que afeto e memórias ambulantes. sobrevivem à custa de uma espécie de necessidade — fórmula química para a combinação de culpa e obrigação. que tende a crescer com o passar do tempo. feito esse mal-estar aí dentro, aqui dentro, dentro de nós. ai, ai. outro dia termina, e volto a consumir jujubas — uma atrás da outra. verdes, amarelas, vermelhas. eu as devoro, compulsivamente, pensando em esquecer você. depois me culpo, sozinha na cama, sobre os lençóis brancos recém-colocados. novembro se aproxima. e o exílio também — a menos que [você sabe].