2009/08/30

baby:
há dias, recupero a pergunta que me fez. a resposta que formulei. as verdades ocultadas — antes da pergunta, depois da resposta, nas faces privadas de luz. o que eu mais gostaria que acontecesse na minha vida? é simples. bem simples — você tinha razão. quero ser amada, baby. dispor da vida e me fazer sujeito fora do metiê profissional. sentir o despir dos pés enterrados nos scarpins bicos finos pela força das tuas mãos — dentro e fora da tua doçura. e sem dor. ainda prefiro pensar que rearranjar a vida pode ser leve — um impulso. o encontro do teu olhar e o meu.

2009/08/27

baby:
amar você me causa certo estranhamento. frio na barriga. um medo absurdo de ficar sem — e não aguentar. e, com você, não é diferente [você sabe que eu sei]. pausei a vida [anos atrás] — pra te encontrar. e agora te espero — por dias e noites inteiras, sem vergonha de me fazer esperar. a loucura me faz companhia, e eu aprendo com isso. amar me causa estranhamento. e, sem que ninguém entenda ou queira entender, te guardo em segredo — meu melhor invento, embaixo do travesseiro. prometi pra mim mesma que os carneirinhos das noites de insônia não seriam mais todos iguais.

2009/08/25

baby:
pra fugir do amor, me embrenhei no trabalho — quis preencher um vazio central. a seguir, emendei mais trabalho, pra não ter que o encarar. um projeto com duração definida: quatro anos. e estou no primeiro. por um lado, é bom. ocupa o cérebro — quando consigo não pensar em você [e nem sempre é possível]. a mente é indisciplinada, esvazia as obrigações, quando existe paixão. não topa divisões igualitárias. é non sense. por isso, os alertas periódicos não surtem efeito. o amor escapa a qualquer controle — é anarquia & desejo. me causa fascínio, excitação, torpor, sandice. o mistério move o meu ser — com seus meneios barrocos, imprevisíveis, dominadores.

2009/08/22

baby:
não sou feminista — sou feminina. faço poses de intelectual por trás das lentes corretivas e não saio de casa sem demarcar a vaidade — com rímel preto, pancake e batom. o nude é o meu preferido — sugere nudez, desvelo aparente, nitidez emocional. e tem sido assim, desde que o conheci. parece que a idade vai nos revelando verdades, impondo decisões. e conjugar tudo isso no dia-a-dia talvez seja minha tarefa mais dolorida. me sobra cintura — mas o jogo me escapa. por isso, viver me angustia tanto — e não é gênero não. ser mulher me desestabiliza — longe ou perto de ti.

2009/08/19

baby:
achei que você soubesse que sabe quem sou. conhecesse trejeitos, manias e desvarios — os eus dispersos, que vai recolhendo, um a um, feito quebra-cabeça [espalhado pela cidade]. porque você reconhece a tristeza do outro lado da linha. o jeito mole. a chameguice varrida. e não sei se é pelo ritmo da fala, pelo espaçamento discursivo, pela respiração. identifica as frações felinas, o desajuste sentimental, os chororôs — enquanto a verdade segue, enraizada, sob o véu e a neblina, e o relógio tiquetaqueia [mais rápido do que ontem e menos do que amanhã].

2009/08/16

baby:
o dia acabou — vazio, como quase todos os outros. o sofrimento se arrastou. venceu a manhã, a hora do almoço, o entardecer — grudado em mim. fiquei me perguntando que espécie de vida é esta — a minha [como se adiantasse saber]. me olhei no espelho e não reconheci a mulher a minha frente. diferente de mim e daquela menina que, um dia, você conheceu. acho que desisti de me inventar — por trás da preguiça, no lado de lá da cortina. hoje, não vai adiantar recolher os cadernos terapêuticos. reler neles a memória que registrei pra mim. é tarde para recomeçar algo que jamais existiu — além daqui. o inferno é hoje. o inferno é aqui.

2009/08/13

baby:
talvez a vida ainda me faça mudar. me leve o riso. me roube a ternura. e me endureça — com o tempo. sigo muda para não interromper o egoísmo alheio, embora também carregue problemas. pelo menos, evito me expor. deve ser mesmo difícil não saber o que se quer — quando se tem tudo. hoje, sozinha, procuro o calor do teu corpo na cama desarrumada. encontro o cheiro — e nele mergulho a cabeça. na falta do abraço, a memória me conforta — até a noite seguinte.

2009/08/10

baby:
algo me diz que guardas todas as minhas cartas, bilhetes & postais — não sei se para estudar a grafia, decorar o vocabulário, ordenar a série desgovernada [meu desejo colecionável]. também não sei se isso de postar meus escritos, por baixo da porta, é certo. é que gosto de me colocar nos dedos teus. me imaginar sendo lida, tocada. reter tua atenção — por trás das lentes de aumento. o olhar cansado — num esforço secreto [do instinto teu]. na conservação do rito, o envio do corpo — para além de si. porque, a cada palavra, morro um pouco.

2009/08/08

baby:
quero biografar você — no dia-a-dia. a morada perfeita — do nosso romance. porque é pra você que escrevo. viro a esquina. acelero os dias — e os minutos. e não importa que não me escreva. importa o gesto. o envio. o registro compartilhado. porque as respostas são emitidas pelo olhar — num time que já conheço. e é preciso ser natural. proteger o mistério que governa o enredo. e amontoar a saudade — enquanto as estrelas caem, uma a uma, no céu a nossa frente, e a rede balança [cada vez mais devagar] até parar.

2009/08/06

baby:
preciso disso que chamam amor — contigo. e nada diferente. qualquer substituição seria menor — incompleta. um desejo pela metade — ceifado. quero mesmo é juntar as imperfeições. viver você na ternura, no entrevero, na ficção. te encontrar na saída do banho, no fim do dia, no olho do furacão. deixar pra trás aquele nó na garganta e dispensar esse vazio louco que me ronda — todos os dias. a redoma de vidro. mas tudo isso sem sacrifícios — da tua parte. é preciso esquecer as exigências que assombram a nossa alegria. uma alegria de verdade não pressupõe sacrifícios. pra isso, aproveite os anéis de Saturno, as luas de Júpiter ou o que já há em nós dois.

2009/08/03

baby:
nesta noite, porque chovia, não dormi pensando em você. quis que a manhã demorasse a chegar — e a noite engolisse todos os dias. gosto de estar com você, à escolta — dono de mim. vertigem que fica — e se enamora [sutil]. a madrugada se arrasta, e bebo outro café, enquanto ouço a chuva cair, grossa-fina, sobre a caixa do ar condicionado. o barulho me lembra o mar — batendo na costa. e, então, começo a chorar, escrever, chorar, escrever. as palavras me fazem bem. o café. você. a vela se apaga, e eu afasto a cortina. outra noite acaba, e eu escureço, olhando, de cima, alguns carros que passam. ninguém me espia dos prédios vizinhos. agora, esvaziada da noite passada, aguardo outra chegar. e, enquanto chover ou ventar, não vou dormir — pra não ter que acordar. vou preferir pensar em você.

2009/08/01

marujo:
triste sim, porque quis que ficasse — em mim. o corpo envolto no meu — sobre o edredom esticado no chão em frente à lareira [em chamas]. a moleza do frio mendigando a presença. vem, me povoa de ti. me aquieta com o peso teu. me abraça e fica um pouco mais — em mim. e tenho dito — com a grafia firme, de quem só pode ser dona de si. e me desculpe o descompasso. precisava de ti — bem perto. pra me segurar — naquela hora. mas quando gritei, era tarde.