2009/06/27

baby:
tente me imaginar sob um olhar terceiro — me atravessando [e despindo]. a seguir, diga o que sentiu. consegue? sei que não tens culpa, porque os olhares se voltam para ti, por mais que te escondas. comigo não é diferente. apesar do esforço, não sei ser cristalina. curvas & volumes incitam desejo & culpa, e o caminhar desajeitado parece convocar o deleite — por baixo da crina sedosa, a entoar graça & mistério. o que não me afeta. uma cegueira noturna me acompanha da porta de casa pra fora, acinzentando a visão e os sentidos. por isso, tenho pressa. preciso viver antes que todos os dias se apaguem.

2009/06/25

baby:
às vezes você parece esquecer que interfere no meu dia-a-dia — e me motiva a viver. em especial quando imprega o futuro do presente comigo — sempre que a gente conversa. e é assim que você se reapresenta em mim — como presente que não é nem agora ou depois, mas hoje e depois. na tua disposição taurina — a adiar tensões naturais, mesmo reconhecendo que condensar nossas vidas pode ser bom.

2009/06/24

baby:
é cada vez mais apavorante viver — por isso, evito o mundo lá fora, por mais que você não entenda. tenho medo de estar viva e de me obrigar a lidar com essa condição até mesmo antes de dormir. falta-me tato — ou um pouco dessa coragem que todo mundo imagina que eu tenha. me abraça bem forte? preciso descansar meu coração no colo teu. ficar guardada um dia inteiro — pra então dar conta de exterminar piratas & assombrações.

2009/06/23

dearie:
estou no céu — olhando tudo do alto. a distância não me permite acompanhar a folha verde que, há pouco, larguei daqui. não a vi flanar até o solo, alcançar o mar ou aterrizar em alguma janela abaixo da minha. viver é de dar medo. e tenho cada vez mais clareza quanto ao apagamento da minha astúcia de gata [borralheira]. minha condição eremita não me dignifica — pelo contrário. me azeda por dentro — corrosiva & definitiva. e, assim, observo o tempo passar, enquanto o leite adoçado com mel esfria na xícara esquecida sobre o balcão empoeirado.
dear:
segure minha mão, faça-me despencar contigo da parte mais alta da cidade. o vento da queda deve ser bom, bater na cara e refrescar a alma. já não tenho mais medo. aceito qualquer desafio. não é para arriscar que estamos vivos? então vem aqui comigo, é da sacada que quero o pulo. sei que sua astúcia de gata vai colocá-la em pé, os bigodes vão roçar no meu focinho, sem dor, em pleno ar. suas garras felinas vão me segurar, vão arrancar meus pêlos e cabelos, mas vão me segurar. sinto-me seguro ao teu lado, ainda que desabando de um arranha-céu. ah, dear, tudo que peço esta noite é a ternura deste salto perigoso — que, de mortal, não tem nada.

2009/06/20

baby:
melhor deixar assim. esperar que a vida aquiete tudo por dentro. que o tempo suavize as tensões iniciais — o desejo recolhido, o projeto interrompido, o devir em si. porque viver é frustrante — neste universo que não me reserva um lugar. mas talvez alguém ainda me ame por alguma coisa que eu escrevi — o que fará tudo valer a pena. ou quase.

2009/06/17

baby:
ainda é cedo para te guardar inside — por mais que o meu querer sinalize o contrário [e o seu também]. ancorar no ventre meu seria instituir um laço definitivo — de amor. testemunhar duas vidas numa terceira. eternizar um momento que jamais se repetirá. a plenitude do eu-você — pra todo mundo ver. o esbanjamento afetivo, num cotidiano outro — em que eu possa me deixar ser, simplesmente, agora feliz.

2009/06/14

baby:
você pode até tentar esconder o que sente — eu faço o mesmo [e você me saca, eu sei]. o que não entendo direito é a razão disso tudo — do que deixo de fazer, do que deixas de dizer. apenas guardo palpites, que já ocupam três folhas do meu caderno terapêutico — a incompreensão estendida, amaldiçoada, prescrita com letras de fôrma. que coisa mais antiga, né!? registro porque não poderei voltar atrás do que vi ou senti — nem de mim mesma ou de você. assim, vou me preenchendo por dentro, gastando o tempo, me reescrevendo pouco a pouco. e não me importa a certeza de estar certa ou errada — o que me interessa é sentir [o que quer que seja].

2009/06/13

baby:
quis tanto um abraço teu. quis tanto ser tua menina. quis tanto que você fosse — meu, do jeito que desse, nas impossibilidades e limitações, mas que pudesse ser [querendo ser]. ao ouvir tuas histórias e as histórias dos outros narradas por ti, me vejo oca, turva, intocada. como se estivesse, nesses anos todos, observando a[s] vida[s] — de olhos abertos, mas sem enxergar. talvez seja assim mesmo. talvez eu seja apenas ghost writer de todas essas histórias — incluindo a minha. e pensar nisso tudo me afunila e intimida. me faz querer migrar. viver outra vida — que me zere por dentro, me faça esquecer tudo que assombra e me cubra de afeto.

2009/06/12

baby:
datas festivas — por que essas tolices ainda me afetam tanto? ah... pudesse transformar tudo em literatura. a minha vida — a tua. viver uma vida em que bastasse estar viva. meu sonho borrado. nele, sou cuidada — por ti. te faço arrimo. fortaleza — certeza & solidez. és sujeito edificado — que choraminga, diz não saber, pede afago e guarida. sim, eu quero ser tua — pequena [menina] safada [aprendiz] mulher. significar nossas memórias datadas — e festejar um dia que seja só nosso.

2009/06/10

baby:
não me olhe assim — eu não inventei nada disso. foi você que me escolheu — quando se viu em mim. eu só aceitei ser tua, embora não tenha certeza se estarei preparada para quando o vento virar. acha mesmo que saberei manejar minha vida na tua — operar instrumentais emotivos e lidar com lastros de sangue e legais? inaugurar tua vida em mim é conciliar passado e presente, cicatrizes e docilidades de uma história em curso... é aceitar circunstâncias alheias — de uma memória que não vivi. ou talvez não seja nada disso. querer você é deixar de lado qualquer temor, ao encontrá-lo a cada fim de tarde — à espera de um novo abraço.

2009/06/08

baby:
falo de um desejo absurdo, sim — porque mágico, cifrado, coberto de estrelas. difícil de verter em linguagem, traduzir com palavras, tentar explicar. é isso que me tira do eixo, provoca o delírio, faz a temperatura subir — e o corpo vibrar. algo que excede o controle, extrapola o domínio, desacerta. é um desejo vestido [pleno] — pela presença, pelo olhar, pelo discurso teu. pelo que o mascaramento natural conserva intocado. tua retidão moral — e tudo que o teu intelecto transforma em fetiche.

2009/06/07

baby:
cuidar de ti é selar, de certa forma, uma intimidade desejada. é sair do banho para me banhar novamente — contigo. é querer que o dia amanheça tarde. a corrida emende mais voltas. a xícara abrigue um novo café. o querer colecionável — de todos os domingos contigo. a observar [da arena] o privado compartilhado. uma rotina que descarta pratos e talheres, no conforto do espaço teu. intimidade é desejar ter meu nome de novo colado a tua voz.

2009/06/06

baby:
tirei o dia pra pensar na gente, extrair daí uma forma de gozo e renunciar, enfim, a tudo mais. quem disse que eu quero uma casa no campo? eu quero a memória de um lar contigo — que tenha o jeito da gente, beliche no quarto, ducha quente. relato de escola — choro & latido [risada & resmungo]. quero o que ainda não sei se posso ter — isso que talvez você também não tenha. mais do mesmo — sem medo. a singularidade de um amor inventado.

2009/06/04

baby:
teu sacrifício tem nome. se chama amor — e não posso pensar diferente. corro o risco de ser simplista demais, eu sei. mas a vida, vista de fora, é sempre mais cristalina. carrega uma nitidez de bastidores — quase crua, imparcial. por isso, parece sempre menor do que na realidade é. um solilóquio — com legendas e replays. porque encenar a própria história é morrer mais cedo. perder as rédeas de si. abreviar-se.