2009/05/30

baby:
me ensina a arrancar essa tristeza doída de ti? temo que te acostumes a ela — e a vida é mais do isso [feliz-mente]. preciso voltar a sentir teus pés sempre quentes sobre os meus [sempre frios], numa alegria miúda — mas plena, por reacender tudo que já se dizia esquecido ou rejeitado.

p.s.: um dia eu ainda descubro como estancar a tua dor.

2009/05/27

baby:
naquela noite, senti que não caberia na tua vida — e não é a lacuna que quero habitar. o coração se encolheu, recolhido dentro do peito — atrofiado pela dor. uma dor que se fez diferente, misto de resposta e enigma — uma intervenção imanente. consegue entender? nem eu. o que não me aflige. o amanhã vai tratar de dar nome ao inominável. porque, por hoje, sentir tua mão tocando suave a pele do rosto que teima em não envelhecer me basta.

2009/05/24

baby:
gostei do presente inconsciente. do regalo nascido do esquecimento teu. do traçado inaugurado no fim da tarde — com taça sem par, vinho amanhecido, jantar. teu carinho seriado no chão da sala. a projeção dos gestos — o fim da castração. o acaso em ação. tua verdade ensaiada em mim — pra borrar, na lembrança, um desvio recorrente. já posso duvidar se não há mesmo espaço pra mim na tua vida. foi bom aniversariar desta vez.

2009/05/20

baby:
depois de muito pe[n]sar, resolvi estancar o silêncio — porque [te] escrever ainda me parece a melhor terapia. gosto das invencionices epistolares. de diluir a verdade em ficções programadas. de teorizar em cima do amor — e da dor. esses dilemas romantizados, embora já nem saiba mais se o meu gostar de você chegou a ser amor. chego a pensar em mania, maneirismo, agenciamento entre falta e histeria, inocência e crendice. coisa de menina — você diria [sem negar], me olhando à espera de um olhar que o envolva [de mim]. simplesmente.

2009/05/16

baby:
eventualmente, tenho pensado que seria melhor parar de sentir. atropelar a emoção até a morte. me batizar de novo — e extrair o gozo pra observá-lo assim: num vidrinho com tampa azul. porque vivo a te esgotar em mim — para voltar a te ter em mim. o que se equipara à tentativa nunca acabada de exterminar o capim que germina no campo. mas não sou predador. rejeito a naturalidade fingida e a omissão tomada como artifício. e, assim, desapareço [em ti], me enterneço — e soluço, operando, num fracasso inocente, os dispositivos do amor [esquartejado, embora, ainda, amor; ou a vida em devir].

2009/05/13

baby:
às vezes, tenho impressão de que minhas cartas se repetem. de que querem dizer sempre as mesmas coisas — no mesmo tom. produção seriada. a grafia é que tem oscilado — feito o meu humor. geminianos têm disso. e estão no inferno astral [o que agrava tudo]. sujeitos ao reorganizar dos astros no céu — a legenda astrológica. mas talvez eu queira mesmo somente reproduzir a mensagem — para reenviá-la. estabelecer, por força discursiva, a correspondência — por mais que alterne codinomes ao te nomear. porque é a ti que me dirigido — em apelos entristecidos, declarações cifradas e registros ensimesmados.

2009/05/10

baby:
quando não te tenho — é quando mais te quero. perto [e distante]. dentro [e mais dentro ainda]. ao alcance do olho — e do olhar. sei que é o laço que evitas — a castração embutida em toda decisão. e eu entendo. enquanto a tessitura se enreda, se enreda a culpa com ela. a responsabilidade do afeto. o cuidado de si. e é exatamente assim que se alastra o laço. num engatinhar cauteloso — e nulo de pressa.

2009/05/08

baby:
sinto muito. não pude mais resistir. as palavras foram desembarcando, uma a uma, enfileiradas, na lauda em branco. a cadeia desejante — de discursos & enunciações, de sensações corpóreas & gestuais [nominais]. teu corpo, máquina de sentidos. procure-se nele — me encontrarás. diluída & cravada [sutil & aparente]. meu corpo, sensações maquínicas. fuja dele — me encontrarás. jogo non sense — de cartas marcadas. por isso é vão tentar resistir. evitar encontros furtivos. fingir esquecer para depois não lembrar. a maré não se sujeita a outrém. foge a qualquer controle. é pulsão. às vezes, bravia, noutras, serena — mas sempre teu mar.

2009/05/05

baby:
eu também não entendo o fato de gostar tanto das palavras. assim como não entendo o fato de você roncar e não dormir. vai ver é porque há coisas que escapam a qualquer entendimento — feito a coragem ou o improviso que tanto combina com a gente. improvisar com você é tatear o céu. sentir sumir o chão [a leveza escoar]. viver sutilezas — e desejar reviver. desejos de sala de espera. bom ar. poltrona nova. revista velha. desejos que não proíbes — nem incentivas [I know].

2009/05/04

marujo:
gosto de atuar com você. me erotizar no teu palco. me excitar nos olhos teus — e inventar perversões. tua natureza me enfeitiça — sem laços contratuais. por isso, posso extravasar com você — ir até onde começa o fim [e recomeçar tudo dali]. fabular o que desconheço. adormecer medos e neutralizar cicatrizes. tua sutileza se refaz em mim — se enraiza e deleita, por trás das cortinas, por baixo dos panos e em meio à platéia [ou onde se enreda o fetiche].

2009/05/01

baby:
sinta meu gozo — ele é teu. é quando teu desejo se inscreve em mim — o coração entra em festa, e a alma saltita [sorridente]. pura bossa. nosso gingado amoroso — disfarçado & cobiçado — ou o afeto e o deleite em excesso [se assim preferir]. esta carta é para dizer que minha paixão não vira água. é gozo pleno [e pleno querer]. um descontrole sem pressa nenhuma. um bem-estar que se instala e se amplia — por tua causa. e é fácil entender: minha excitação mora em ti. na tua vida real. na nossa história imortal.