2009/04/29

baby:
hoje, sou inteira saudade — simples assim. por isso, não sei o que dizer. a saudade me engoliu — triste, solitária, cheia de nós. e já não consigo fazer mais nada além de pensar em ti. no bem que me faz. no quanto me ilumina e me encanta. hoje, nada tenho a dizer — simples assim. vazia de toda linguagem, sinto-me estratificada assim — pela saudade [simplesmente].

2009/04/25

baby:
quis te eleger dono das minhas vontades, senhor das minhas verdades — meu imperador. te entregar meu controle remoto, códigos de acesso & senhas bancárias — a chave do céu. te oferecer meus sonhos & quereres. essa dureza doce. o olhar de mel. alguns escritos. pensei em tudo isso. no tempo. na vida. no estar só. no que me parece importante — e tão distante. quis te escrever bonito. ler clarice pra você. espiar teu sono. foi quando parei de pensar. o trinco da porta baixou — era você, e eu sorri.

2009/04/22

baby:
quero me alimentar de ti — até a carne. perpetuar tua presença em mim. violar segredos & assombrações. me acidentar — refém do desejo, do silêncio, da pretensão. mas sinto medo. então desvio minha vida da tua. evito você. adoeço. me entedio. fujo de mim. pura histeria gratuita. em verdade, queria saber como agir com você. preservar teu jeito. tua quietude. teu deixar ser. por tudo isso, me retiro. coleciono desvarios, chororô, saudade. e tento esgotar meu querer mais breve — e generoso.

2009/04/20

baby:
larguei o envelope sobre a mesa — sem remetente, inscrição autoral, marcações. pra quem quisesse abrir [violar] — levar. porque uma carta sempre chega ao seu destinatário — pra dizer de si. breves verdades, verdades-mentira, meias verdades. simulações travestidas de si, pra si. meu vagar discursivo. minha linguagem inconsciente. minha pequena certeza. a de estar, mais uma vez, a teus pés.

2009/04/16

baby:
teu corpo me escapa, e eu me aprisiono — no que não tenho mais. me deito no leito ocupado por ti — e tento dar conta da falta, da tua vertigem engomada. o outro lado do espelho. sim, estou de volta aos meus fantasmas inventados. à velha paixão e seus flancos. ao cavar da memória — nos restos teus [o que sobrou em mim]. volto a sentir o corpo. o que nos aproxima — e não tenho mais. minha fome de ti. pervertida & extraviada. o que nos acende — e eleva. ou o que era — simplesmente.

2009/04/11

baby:
um banho a dois sugere mais que uma intimidade privada. sugere o desvelar do segredo, a invasão anunciada do despir da malícia e da carne — meus trunfos. preparado? viver o secreto é diluir o feitiço, a vertigem que encobre a pele. é escancarar, enfim, o ocultamento natural. a sedução primitiva do esconde-esconde. minha presença intocada. minha concessão erotizada — provocativa [turva]. simples prescrição de um presente movido pela tua presença líquida — fugidia & apaixonada, inominada & vulgar. teu falo desejado. teu vagar distante e enamorado mora em mim.

2009/04/10

baby:
sexta-feira da paixão — a de cristo [não a nossa]. sexta-feira sem paixão — ou aquém dela [a minha]. escrevo para contar que avistei a paixão — da janela. passou feito gaivota no céu — e se atravessou em mim. o sorriso largo. o abraço simulado. a crueza da aflição desmesurada. disse, sem dizer, que é preciso reprogramar a paixão — anulá-la, todos os dias do ano [da vida], a partir de agora. teu teatro calado. mas já entendi. melhor viver a falta que viver a tua falta. minha grande falta — apaixonada [e imor(t)al].

2009/04/05

baby:
é hoje que vai ganhar meu beijo bem na curva do pescoço? estou sedenta de ti — e quero te imobilizar. operar a embriaguez. diluir teu sangue em mim — e me refazer na tua presença. porque há, no teu vocabulário, um não-sei-o-quê que me adoça. no teu corpo, um não-sei-o-quê que me excita. no teu jeito, um não-sei-o-quê que me apaixona. e o meu desejo reside nesses não-seis todos. no que não entendo. no que não vejo. no que não posso. meu duelo é amar você sem querer — ou entender. eu juro.

2009/04/04

dear:
às vezes, é preciso perder para ganhar. perder-se de si para então se encontrar. se esparramar no próprio desencontro. naufragar para se salvar — e apartar desassossego e dor [esse real com cara de ficção]. desde tua última carta, estou esvaziada de toda linguagem. mergulhei nela e, por lá, me perdi da beleza vocabular. o discurso me escapou — e agora não sei retribuir. me falta o amor. a disciplina. a sutileza verbal. o espaço do gesto. o traçado natural. me afirmo em ti para poder existir — resistir. e, na falta [assim como na falha], melhor me recolher em mim. costurar o casulo. me encapsular. voltar às origens — o líquido amniótico, meu escombro fetal. o recalque primitivo — da fama & da fome. minha esquiva maldita.

2009/04/03

honey,

'muitas vezes perdi-me pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos'.

ouço tua voz, segredando garcia lorca ao meu ouvido. também ouço tuas variantes cabendo em mim: 'tenho perdido no mar o coração de alguns meninos. tenho pedido para o mar o coração de alguns meninos. tenho pedido um coração ao menino do mar'. como posso me esquecer dos teus lençóis oceânicos, das nadadeiras de tuas mãos e do teu esquivar-peixe? ah, sereia imperial, tu me transformas de lobo do mar em mero cãozinho. tu me naufragas de amor. e com teu hálito forte, encalho nas areias destas palavras de praia.