2009/03/29

marujo:
abra os braços — quero caber dentro deles. me aninhar no jeito teu. e me sentir do tamanho do mundo outra vez. dona das minhas histórias. de uma leveza miúda. me deixa ser brisa marinha outra vez? a pequena sereia — o mito da deusa-mulher do mar. teu folclore afetivo. é que ando molinha. pedindo dengo & carinho. carregando uma vontade-mendiga de ti — que assopra 'saudade saudade' de si. acontecer teu corpo é me desejar de novo em mim.

2009/03/28

baby:
faltou ousadia. safadeza. insensatez. reconheço. a sandália poderia, sim, descalçar o pé — pra alcançar teu tornozelo [por dentro da meia]. um convite ao deleite [por baixo da mesa]. um cutucar mental — inventivo-afetivo. sobrou prudência. potência. timidez. admito. o vestido poderia, assim, se descolar do corpo. provocar a fantasia. ensaiar um leve despir — da tua fêmea passiva. para além da inércia do ato, imperativo era preservar a aura do affair — o fetiche da história em segredo. a excitação ampliada ao extremo.

2009/03/27

baby:
gosto de me ater aos detalhes, feito aquele roçar furtivo das pernas por baixo da mesa — teu afago público-privado. ao abandonar o cenário, não me despedi — não era hora. a falha protocolar seria perdoada a seguir — no reconhecer pleno dos corpos [na intimidade biográfica]. no iluminar estrelado do leito, a ordem desordenada. meio-começo-fim. recomeço. meio-fim. o diálogo dos desejos. e a nudez da íris tua estacionada na minha — tua paragem secreta — pra dizer, em silêncio, que um jeito qualquer com você não existe.

2009/03/26

dear:
sou uma heroína de papel — personagem de mim mesma. uma donzela virtual [mais próxima do real]. nem isso assusta você? soube, por quem já viveu mais do que eu, que a vida só pode ser triste. e que todos os caminhos levam a isso. viu só? desista — de mim, de si, de tudo. não há alternativas. os descaminhos são os caminhos possíveis — nossos destinos extraviados. nossa felicidade roubada. pra disfarçar, carregue nas tintas, desmonte a carruagem, não saia de casa. acenda um cigarro e desenhe, no céu, com vagar, um coração que me faça acreditar em tudo de novo.

2009/03/25

honey,
caminho pelas avenidas cheio de uma ternura suculenta. é um fruto, você diria, sua boca. um rio caudaloso percorre meu interior. por isso a virgindade de um menino é insensata como a sua. não vejo necessidade de velcros e de costuras para a pele primeira e segunda que nos cobre. de par em par vão nossos sonhos, acordo tácito e silencioso de amor. enjoa minha littératuricide costumeira? achei que da ponta da mesa não dava para captar essa tristeza pequena. almoçando juntos, tomando chá de laranja depois, sempre dizemos bobagens e rimos das coisas engraçadas da vida. das nossas, sobretudo. e de como, de tempos em tempos, somos preenchidos de um sabor tão avant-garde que ninguém mais entende. é tão gostoso cortar as fitas — as minhas e as suas — e abrir o salão.

2009/03/22

baby:
costura teu nome no meu? proponho uma trama a dois — adocicada de mim [apimentada de ti]. regada a testosterona e desejo. o gozo jorrado. o amor edificado. e a nossa invenção, enfim, testemunhada — numa nova vida para contar. a morenice tua. a falta de jeito nosso. a literatice minha. certa melancolia no olhar [de uma tristeza costumeira]. e a repetição dos teus passos desacelerados [ou da minha pressa disfarçada]. duas vidas costuradas. acontecer você é me inaugurar de mim. é celebrar a estréia.

2009/03/21

dear:
não há pressa no extrair de verdades e doçuras — teu policiamento. o pornô da linguagem é a própria antecipação — de um instante-já. uma promessa de gozo instantâneo e fluido. é, sim, o desejo impondo vontades & intenções. um desvelo anunciado. a saciação insaciável da carne [kiss me now kiss me again — kiss me, please, bliss], suplantando temores e novas escoriações amorosas na derme da alma. devorar teus beijos e trejeitos é me fazer mais sutil e intensa. mais mulher.

2009/03/19

honey,
eu me esgotei na linguagem do corpo. [listen to me, trêmula, a carne sua, flâmula]. deixei de lado os experimentalismos eróticos — os desvios de norma, o estranhamento do fetiche. vesti as fantasias todas do armário e me saciei da coisa que era só imaginária. a vida parecia uma árvore cheia de frutos, com cada fruto representando uma possibilidade de gozo. ao ir provando um por um, descobri que o gosto por trás da casca era tão igual ao da suculência anterior. decidi deixar o corpo sentir fome. 'devora-me', disse a mim mesmo. [please, kiss me, bliss]. e mais tarde, menino-homem, descobri a voragem das carícias, a predileção pelas preliminares e pelos sussurros premonitórios do orgasmo. descobri que eu preferia dizer a ti e com a tua retórica: 'devora-nos, amor'.

2009/03/17

dear:
a retórica mora em mim — e eu vivo dias de olimpo. coleciono a experiência que não pode ser narrada. a rouquidão no adeus interrompido. jogos de cena & fetiche. por isso, prefiro amar tua natureza permissiva. teu hermetismo formulado. a sutileza dos teus gestos encolhidos. aqui, qualquer mudança seria inviável. anularia a realeza de afetos & sorrisos — e não pense que posso estar mentindo. especulações são sempre inconclusas — uma espuma no mar. nossa vertigem.

2009/03/16

honey,
não consigo imaginar que seja eu que tenho uma experiência limitada de afeto. circunscrita, cheia de limiares, de cercados e de dedos. foi você mesmo quem datilografou a carta? tive impressão de ouvir outras vozes, que murmuravam ditados de colégio no seu ombro. por isso quase cheguei a concluir que para nós dois não há vez. o amor nos tempos modernos é quase uma pornografia de segunda categoria. filme b. quem sabe não passe de uma cólera pelo avesso, filmada com o mínimo de takes e orçamento. o bilhete que me deixou ficou na mesa. releio vez ou outra e continuo acontecendo a desconfiança.

2009/03/13

dear:
teu destempero não tem motivo — assim como o meu. a solidão nos devora, inventa enfermidades, atormenta o juízo. dramatiza. faz cama de gato do amor — exagera. e, no fundo, não exige mais que o colo materno. a imanência do afeto. a redenção filial. esvaziados de toda ternura, levitaremos até o raiar. no jogo do esconde-esconde, as profecias tendem a esmaecer — feito castelos de cartas marcadas. nossa ruína seriada — a encenar a queda dos sonhos em cascata. um leve aceno.

2009/03/12

honey,
a garra da fera alisa um homem. também limpa a pele de todo prenúncio de precipício. ouvi você dizer que eu era vindicativo nos meus desmandos. não me entristeça assim. só gosto do sussurro dos impropérios naquela hora marcada por lençóis e corpos suados. a duração desse tempo específico exige para os ouvidos os adjetivos mais pejorativos — cachorro, canalha, cafajeste. então eu me naufrago na sua sedução bêbada, à deriva das minhas insinuações e caprichos imperfeitos. em verdade? arfo de desejo, feito um cão no portão. e ladro. para depois ser atingido pela garra da sua fera, essa que me vê de passagem e a contragosto.

2009/03/05

baby:
dentro ou fora da história, você se escreve e inscreve em mim. escolhe a forma, cada palavra, a hora de virar a folha. se coloca no canto, cola na margem, escapa pelos rodapés. falso perdigueiro, delimita pela sutileza. pelo rosnar mudo. pelo movimento ciliar — teu deciframento anunciado. machos são cegos no amor. disfarçam para revelar, do lado de cá das cortinas, o desalinhar dos espelhos — numa intimidade que sugere bem mais que frascos de água com gás na porta da geladeira.

2009/03/01

baby:
mais solta sim, porque mais próxima — e tua. numa intimidade que ainda preserva a solidão do chuveiro. a impureza lavada da carne. o escoar lento de suores e odores. privar você do banho meu é prolongar a doçura. adiar o avanço da pressa. e ensaiar um vagar inventivo e curioso. banhar a intimidade é guardar respostas sem perguntas. desejar o desejo do enlace. silenciar a vergonha — gozar no olhar.