2008/11/28

marujo:
não sei o que teme ― será que, algum dia, você me diz? às vezes, sinto que a normalidade assusta você. o estar ali. permanentemente. e que precisarei de uns mil anos pra entender você ― arriscar um traçado. não, não será o suficiente. a maré vai levar. desmanchar o castelo de areia que é você. a silhueta. o brio. o verniz. e retomar tudo do zero seria estender meus dias de ti, sem ti, por ti. me entregar a um esboço infinito. mergulhar no teu mar sem fim.

2008/11/24

baby:
não quero que me entenda ― não tenho a pretensão de entender você. não quero mais que inventar brincadeiras de pele e discurso com você. por isso, vem [sem pressa]. apaga a luz. afasta uma coxa da outra. ergue o cabelo e desliza o nariz pela nuca minha [assim, fingindo quase tocar]. depois, respira fundo, enquanto me conduz com as mãos. arrima o quadril. encaixa no ventre teu ― nosso carrossel amoroso. minha noite de estréia ― no centro do palco, sem nunca saber o momento de parar [ou prosseguir].

2008/11/23

baby:
a gente não pode existir além de uma pausa e outra ― num continuum? é que, no fundo, não há movimento certo ou errado. há movimento e pronto ― e isso não pode parar. ainda estou proibida de amar você? em fase experimental? não adianta tentar me estudar, baby. previsões sempre são falhas ― puro dispêndio. por isso, teu desenho de mim não pode existir ― o real escapa a qualquer moldura. e, enquanto tudo isso perdura, evito a cama vazia. me coloco à espreita ― à espera do conforto do corpo teu. preciso manter acesas as luzes que cintilam nos olhos meus quando estou em você.

2008/11/22

baby:
o melhor da noite nem foi meu gozo comprido. teu desejo escancarado. os beijos sortidos. o melhor da noite foi o pedido de abraço. o encontro dos troncos no meio da sala. a entrada [no menu do affair]. o chamego inicial. minha recompensa ― e nem preciso dizer pelo quê. tua noite de mim. a chuva lá fora. cenário de luz e sombra ― céu em festa e ciranda no mar. teu odor camuflado. a pele lavada. o cabelo cortado. teu querer à espera. anunciado. gostar de você, por tudo isso, é sempre pouco.

2008/11/14

baby:
hoje, mais uma vez, prometo me despedir de você. executar, enfim, meu adeus abreviado. sair de cena ― de vez. vai dizer que já esperava, eu sei. o beijo final, o desarranjar dos corpos, o falecimento do amor. minha projeção. tua extensão. isso que não conheço ― e talvez nem queira conhecer. o amor. não há mais tempo. o céu se fechou. rasgou as cortinas. mandou guardar o sorriso. esconder o desejo. me preservar. o dentro de mim precisa se encolher, antes que seja tarde. não vou me deixar engolir pela tua omissão.

2008/11/11

baby:
minha paciência existe porque você existe. é fator visceral. tua herança mais bela, se me imaginar a muitos anos daqui ― o que evito fazer. lidar com o irrevelável que há no porvir. é como ir à última página da nossa história e nada por lá encontrar. um faz-de-conta sem fim. a linguagem interrompida. à espera de ― um gesto, uma palavra, um sinal. a simulação do amor ― você é minha doçura, eu sou a sua e ponto ― preservado nestas linhas nas quais me faço [desfaço], na história que vivo a contar, nestas páginas que um dia você lerá.

2008/11/09

baby:
eu não evito a verdade. nem me esquivo da realidade. não é isso. apenas prefiro dar sentido ao que não faz sentido em você ― a tudo que lhe escapa o sentido. às declarações veladas. às enunciações implícitas. ao calar amoroso. ao silêncio não-formulado, enquanto o olhar se firma na própria discursividade. consegue entender? não sei lidar com a omissão do amor ― isso que ele não quer. e não pretendo abdicar de mim. me despojar das minhas verdades. por isso, quero dilatar o desejo. vê-lo ressonar. pra me guardar nele ― em segredo.

2008/11/08

baby:
você dorme. eu espio. é inevitável. a luminosidade da noite favorece o fotografar da intimidade ― a nudez natural [que extrapola trajes e lençóis]. é quando a verdade é saliente. se incorpora aos sentidos. preenche a memória ― meu relicário. velar teu sono é recolher a privacidade. tocar pele, espírito, energia. ambientar os ouvidos às emissões viris. o ronrom da surdina ― na qual se esconde a cumplicidade: o sem sentido que há em você [tua persona real].

2008/11/02

baby:
é hoje que vai pôr fim à saudade ― me prensar contra a parede, fazer a vida parar pra sonhar? consulto o tarô, nessa mesma mesa em que as confidências sempre são colocadas ― entre os talheres enfileirados nos pratos sujos. as cartas mantêm o suspense, e eu estico o olhar, pela janela, até onde a visão consegue alcançar. observo os carros, as crianças acompanhadas, os corredores nos supermercados. ainda hoje queria esgotar a saudade, esvaziar o recipiente em que a deixo estocar, de tempos em tempos. porque o melhor da saudade é aquele exato momento em que ela finge acabar ― pra começar tudo outra vez.

2008/11/01

baby:
a saudade é um jorrar de sangue pedindo para ser estancado. uma fratura iminente. uma tatuagem que ninguém vê. porque pressupõe sempre dois domínios — leitura e interpretação, recepção e decodificação. um encontro obsceno, no qual é possível avistar o avesso — o eu de dentro, minhas entranhas. tua presença entranhada. no escrutínio da alma, verás as escarificações desenhadas pela saudade. tua freqüência amorosa — diversas vezes assinada.