2008/10/31

baby:
te espero em silêncio ― como quem aguarda um telegrama que nunca chega. a expectativa me mantém viva ― e as cartas ajudam, pode acreditar. na verdade, não vejo a hora de ser surpreendida. é que, às vezes, dói me sentir feito um cão sem dono. acha que saberia lidar com o muito de ti? enquanto te escapa, o tempo foge de mim também, me enche de elucubrações, me atormenta. tenta roubar a doçura. impor exigências. me envenenar. retruco pela teimosia que é desejar. de escudo, uma complacência felina a defender futuros dias de ti. meus novos 365 dias de ti.

2008/10/30

baby:
às vezes, penso que a natureza do amor é escorregadia ― assim como são seus interditos, seus fluidos e faíscas. uma liquidez impossível de conter. amarrar ao corpo. estocar. uma condição sine qua non ― e perpétua. nossa condenação. e tudo isso é tão sedutor... cogitar travessias, travessuras, travesseiros com você. simular contatos & afinidades [a reestréia do affair]. adoro observar teu caminhar. revolver o dorso meu com o peito teu. aguardar o roçar dos mamilos ― o prenúncio do amor [sua avant-prèmiere]. seu contínuo ensaiar. nossas silhuetas caminhando pela casa― os pés descalços, as almas despidas, o tempo esquecido. nosso querer geminado. eu amo teus dias de mim. de verdade.

2008/10/26

baby:
venha brincar comigo. narrar historietas inventadas. desafiar o juízo. simular perversões. me excitar pela palavra ― a gramática viril [teu labor sensual]. proponho desejo & encenação no esteio anônimo de sujeitos comprados. nossos pudores derrubados. teu fetiche em 3D ― no centro do palco, no entorno emparedado, no alto da lona. nosso cenário circense. o grau zero da intimidade. a arena do amor.

2008/10/24

baby:
meu sono foi embora com você. de carona. sentado no banco de trás. deixei que fosse, sem contenções. e, deitada na cama, refiz teu trajeto. dentro dele, observei tuas mãos ao volante, no câmbio, ligando o cd player. acompanhei o soundtrack, o movimento das pernas sobre os pedais, teu rosto flagrando o litoral. contei as curvas asfaltadas e a distância que nos mantém separados a cada amanhecer. e, no esplendor do berço teu, fingi adormecer ― no conforto da tua presença. pra deixar o sono em suspenso, amarrado ao suspense que é viver você. ser teu sonho ― e abandonar, enfim, rodeios e blefes discursivos, a impureza acinzentada dos [meus] dias.

2008/10/21

baby:
é preciso coragem para amar — um bilhete postal [teu passaporte]. aproximar memórias e temores e descartar arroubos carnais. pois é no amor [e na dor] que a canalhice se constrói. na intimidade do olfato. na seleção de novos menus. nos intervalos sociais. as casualidades de quarto e sala elevam as energias, fazem vibrar os entornos, desafiam os sentires. permitem corromper o tempo [sua natureza fugidia] para esticar tudo que nos faz bem — nosso desejo elástico. amar pede coragem, baby. uma coragem menor que ancorar um navio no mar.

2008/10/19

baby:
que quer o canalha ― esse homem com bossa e estatura intelectual, charme e desembaraço verbal? às vezes, tento dar conta disso ― ingenuamente [diria você]. é quando me perco. deslizo no vácuo. adoeço. viver você é não entender você. é desaprender você. é flertar com o inominável. tocar teu mistério ― ou o misterioso que há em mim [e que você diz haver]. meus segredos de fêmea, princesa, menina, burguesa. aí pergunto o que quer quem quer o canalha? me responde na próxima carta? enquanto a resposta não vem, imagino teu beijo, desses que fazem barulho de estalo [quando o sopro termina], bem no meio da bochecha.

2008/10/18

baby:
reconheço que a vida vale a pena pelas delicadezas que apresenta. e você é a maior delas ― a mais doce e a mais bela. por isso é tão difícil fazer o amor andar pra frente. pra renascer de outras formas ― sem deadlines sistemáticos. e é natural que seja assim. a máquina do amor entra em cena por gestos, pensares, sentires. é como o costurar da palavra gerado no desejo vivido e no desejo do agrado, do gesto pensado para o outro. é, sim, um ritual. um movimento que tenta antever e provocar, desenhar a reação do outro. quer que goste, que me ache boba, que se emocione, que sorria, que se encha de ternura, que goste mais de mim, que guarde pra si, que agradeça... abandonar meus quereres de princesa não me fez esquecer você.

2008/10/14

baby:
não basta ser o centro da noite, ter para si os holofotes, se não estou com você. nessas horas, nada parece importar, e você percebe como é difícil abreviar a fala quando o desejo toma a palavra [e a vida é mais do que isso]. eu não apareço, mas você me vê por toda parte. porque o coração projeta a presença, colore meus traços, reproduz as fotografias — te inunda [na fantasia, na histeria, na tela vazia]. as luzes se apagam. o show acabou — e as cortinas se fecham para entrar em cena o velho medo de seguir adiante, voltar o olhar para o que ficou e nada avistar além destas cartas nunca respondidas.

2008/10/13

baby:
quero você depois do beijo, antes do gozo, além do tempo e assim que o desejo esfriar. pago fiança, te liberto, me enterneço — se você deixar. porque é você que eu quero — simples assim. o glamour [teu]. a bossa [nossa]. a lírica [minha]. nossa saudade roda gigante, correio elegante, luar estrelado, balanço do mar. bandeirolas de Volpi, boizinho barrica, som de matraca, mistério no ar. doçuras espichadas, promessas soltas, luxúrias encenadas, urros e palavrões. quero você, admito — numa afronta forjada, num desacerto, num embaraço. meu pega-pega.

2008/10/12

baby:
o amor bateu. procurou espaço. deu meia volta e sumiu. disse me amar pelo que não tenho, pelo que não sou, pelo que não vivi. pela diferença [minha]. pelas semelhanças [nossas] — o calar, o ouvir, o deixar ser. e que os verdadeiros amantes prescindem da palavra. pois a comunicação se dá para além dela — pelo cheiro, pelo olhar, pela temperatura. o verbo cabe, então, como suplemento, efeito coringa, verniz. uma suíte premium. um esbanjamento. um lirismo. o que só significa para quem sabe amar. e eu, baby, amputei o amor — para jamais [te] amar.

2008/10/09

baby:
a solidão pode ser produtiva, desde que não incorpore terceiras impressões ― essas que carregam uma espécie de título de incapacidade ou incompetência marital. melhor ser só que viver uma solidão acompanhada. estar só não quer dizer ser só. é um estado. uma condição não-perpétua. uma escolha ou uma imposição ― de si, para si. um esforço secreto, um egoísmo permitido. faço da minha corredor de lembranças e ancoradouro de projetos [profissionais, é verdade]. talvez fique mais fértil, mais criativa, mais maternal. os dias vazios de você me injetam desejos de escrita e leitura, de memórias e gozos escriturais. tua interferência renasce de outras formas. salutares na sua natureza indecente.

2008/10/07

baby:
meu corpo desaprendeu a dormir só. é solidário à insônia tua ― mesmo a distância. já viu algo tão lindo [de uma nobreza assim delicada]? a mente não desliga. dá voltas e voltas. tonteia. ensaia um outro percurso e falha. aciona, a seguir, o imaginário, enquanto se finge alheia à razão ― suas verdades e proibições. pois tudo que não quer é contrariar o desir ― atropelar isso que faz o corpo pular da cama pela manhã, espantar a preguiça e encarar a vida fora daqui. porque é preciso voltar a sorrir. suplantar o desprezo. se deixar envolver. partir.

2008/10/06

baby:
sei que lê Caio, todas as noites, fingindo me ler ― fazendo aproximações, procurando semelhanças, tentando desvendar segredos e fortunas. sei que o acompanho à sauna ― e quando a insônia bate. sou teu lugar-comum. teu clichê. teu tempero social. tua alucinação [sexual]. tua pequena [leveza]. sei, também, que teme pelos meus sonhos ― não quer roubá-los ou vê-los ruir. teme por mim. pelo apagar do encanto. pela esterilização da inocência. pela meninice. apenas esquece que só sei ser com você. na incompletude tua ― doce amostragem real. no que conheço. no que desejo. no que vivi. no que [ainda] quero.

2008/10/03

baby:
sei que evita me encontrar. que se esquiva de mim. ao olhar nos meus olhos [e neles se enxergar], se sente nu ― uma marionete [do desejo]. longe de mim, pode pulverizar verdades que não se cristalizam, me dizer tudo que gostaria de sentir ― mas não consegue. diante de mim, perde os sentidos, se atrapalha, balança. teu querer esbarra nas paredes, sova portas e janelas, sobressai, te atravessa e goza ― pois não cabe em si. sei o que sente. o que quer [de volta]. que me sabe à espera. que me lê. tua distância é proforma ― protocolar. etiqueta inventada. alegoria. nuvem negra. estesia.

2008/10/01

baby:
queria esvaziar o coração. extrair você. apagar memórias e doçuras. remover frases e afetos. pois já não sei o que fazer com tanto querer — talvez pudesse embalar, distribuir em pequenas porções, comercializar. o que sugere agora que me perdi na tua presença — e não me descolo mais? és tatuagem na mente — par de movies, songs, books. escravização da psique. um encantamento que escapa à compreensão, pois só sei me querer dentro dos teus braços. na verdade, queria retomar nossa história. propor uma nova largada — just once. beijo.