2008/09/29

baby:
voltei à Guanxuma de Caio — a cidade inventada [meu deserto de dias desertos e almas desertas], meu confinamento. daqui é possível reviver meus dias com você — aqueles que vivi, aqueles que quis ter vivido, aqueles que ainda sonho viver. e lembrar que não insisti com você. não forcei a barra. não fiz teatro. me deixei desnudar. me exibi. me envolvi — vivi. aqui, once é mais. é a materialidade do corpo, no fio da memória [na disposição do desejo]. é o despojamento de medos e pudores — e a presença de um bem-querer a sobrepujar a angústia no peito. uma magia secreta. ampliada. fictícia. um devaneio sem pressa nenhuma.

2008/09/28

baby:
leio Ana C., ouço fine house — não sei se se combinam [o que em nada importa]. ela escreve sobre John Donne e tradução e, num para além da linguagem, me leva a você. o que não é difícil — you know. leio você no que não afirma. no que recusa. no que oculta. nasci para verter teu silêncio, traduzir teu discurso lacônico, decodificar teu olhar tácito e amar tua [linda] falta de jeito. minha tradução amplia o original, infla os sentidos, faz pirotecnia com as palavras [e as lacunas]. é quando tua voz e a minha se abraçam, em uníssono, confundindo-se. e é assim que deve ser o desejo — conexão de sons e sussurros & profusão de fluxos e fluidos. a puzzle.

2008/09/27

baby:
não gosto de estar à deriva — prefiro navegar com você. combinar o passo, segurar a mão, me sentir cercada [por você]. e, por muito tempo, quis acreditar que fosse possível. agora que se foi, o céu tomou as dores — porque não nos quer sós. é por isso que não cessa de chorar. verter garoas que se demoram, se prolongam, se repetem. pois é preciso entender a dor — estender o luto, lavar o espírito, renascer. a dor é algo que se alinhava, se modela ao fluxo das emoções. e agora não sei ao certo o que pensar disso tudo, embora tenda a achar que os corredores do mundo são pequenos demais pra nós dois — pelo menos, nesta vida.

2008/09/26

baby:
o deus das pequenas coisas esteve comigo. veio dizer que é preciso apreender a verdade. repetir a verdade. viver a verdade. esquecer falsas promessas — reconhecer que não velejei com você, não bailei com você, não conheci quem pode amar você. e que "um dia" pode significar "nenhum dia". assim como o que parece estar ao alcance do corpo nem sempre está. às vezes, o que parece tão distante surge para mostrar que sempre quis estar perto. o desejo me fez supor que com você fosse exatamente assim. mas agora deixei de saber qualquer coisa. a omissão esmaga a esperança. vai arranhando os desenhos congelados na memória até que as fotografias se tornem painéis virgens, numa solidez escandalosa [sanguinária].

2008/09/22

baby:
eu entendo você. tua dificuldade em firmar novos laços. tua inércia sentimental. a culpa imobiliza os sentidos. bloqueia o desejo. amarra você à sujeição alheia — ao par que deixou de ser par, depois de afugentar você. é uma armadilha — da qual você precisa querer se desvencilhar. e isso é possível se lembrar que os laços sangüíneos não se desfazem jamais. assim como o amor por quem lhe deu a vida [e os sonhos]. sofrer, neste caso, é opcional. deixar-se pesar por intempéries que não lhe dizem respeito e privar de uma leveza que lhe faz bem, embora pareça irreal. a gente tende a temer o que desconhece, ainda que se sinta instigado. você me contaminou com a paciência. e, ao lado dela, há uma força ainda maior. o bem. meu bem-querer, meu bem.

2008/09/21

dear:
onde mora o alívio? será que você pode dizer ― mandar devolver isso que levaram de mim? não sei pedir por socorro, enunciar meu desespero, desmoronar em plena arena. nessas horas, a voz escapa, os movimentos não se completam, e o coração se reprime. o que devo fazer? desenhar alternativas [viáveis e até pouco esperadas]? ir pra bem longe daqui ― e implementar uma distância real [na sua extensão geográfica]? suponho que nada disso adiantaria ― a menos que me ensine a desplugar o imaginário [o eu sensível]. no mais, tenho seguido tuas prescrições amorosas ― como entoar mantras, beber muita água e apanhar sol, pela manhã, sempre que há. na minha cegueira maldita, tenho visitado o litoral. espiado o mar. é como me sinto melhor. menos próxima do que não posso mais querer. a marcha das águas afaga o ego e remete à leveza perdida, apesar de tudo [apesar do nada].

2008/09/17

baby:
desejo de cama & travessuras de pele com você. preciso dizer mais? anunciar que a saudade aperta, enquanto o peito se espreme em silêncio, tentando despistar a passagem do tempo — de um dia a menos com você? gosto de gostar de você. de movimentar a memória e reproduzir tua imagem e teu cheiro. recordar o toque, o gosto, a textura. observar o mar como teu palco, tua energia, teu viver. a paixão me faz generosa [e ainda mais doce]. e talvez o erro nem tenha sido meu. você provoca a paixão, induz o encantamento. me desperta. me desconstrói. e hoje eu realmente estou saudosa de você. e de muitas outras coisas. de chocoleite escorrendo pelo queixo. de arroz doce com cravo e canela. das tuas histórias narradas à meia luz. da falta de vergonha [minha]. do peito nu [teu]. me deixa violar a regra — pular o portão e abraçar você? não sei ser preterida. e preciso lhe dizer isso já.

2008/09/15

baby:
guardo, ao lado da cama, a estrela que trouxe pra mim lá do céu. ao velar meu sono, ela ilumina meus devaneios ― o subconsciente, a integridade mental. e talvez seja a única garantia de serenidade ainda possível. uma leveza sem preço. ou que tenha o preço da tua doçura. o preço de uma presença distante. fugidia. líquida. gostar de você foi meu erro, acertei? e como seria possível não gostar? sinto que estamos condenados a gostar um do outro. gostar do quem vem do outro. do que é do outro. tudo porque nossos espíritos dialogam ― e se procuram. por isso, nos sentimos próximos, já conhecidos. sensíveis a tudo que toca o outro, que o envolve, que o machuca.

2008/09/14

baby:
gosto de contemplar os rituais, embora não me veja em nenhum. a felicidade não está neles, porque é pura imanência. por isso, prefiro me render a outros movimentos. me encantar com atitudes que fujam ao script ― pela fluência e pela naturalidade, pelo impulso e pelo instinto. e não há nada de errado nisso ― ou em mim. conservo meu romantismo em frascos de conserva lacrados a vácuo. existe isso? não importa. atrás das portas de vidro fechadas a chave, guardo as lágrimas que restaram do falecimento do espírito. quando foi mesmo? há alguns anos, e nem lembro mais. o corpo sobrevive melhor sem ele. e é nisso que tenho me apegado. por cansar de não ter, optei por não ser. o amor não é um jogo de perdas. o amor é o indizível. a ficção plena.

2008/09/13

baby:
sim, eu cortei o silêncio ― passando a faca [de um lado a outro]. sei que não esperava. que prefere deixar tudo como está ― as promessas validadas, as decisões proteladas, os desejos abafados. mas não consegui me conter. evitar tamanho ardor. pois é mentira acreditar que a dor da saudade se desmancha com combinações medicamentosas. tolice achar que se sabe enganar a saudade e esquecer como ela pode doer. há dias, tenho amargado a falta tua ― e provado a interação de tudo que não me faz bem. o que me faz admitir que estava errada ao pensar que pudesse desarmar você, diluir a ressalva e estancar a dor. errada ao te entregar todos os meus segredos. ao depositar, em ti, minha doçura mais fina. minha geléia real.

2008/09/07

baby:
ainda não sei se quer ser meu par. alternar o cenário privado com o palco público — a segunda pele com o trajar festivo. tua reação ao convite soou a improviso. um esboço. rascunho de resposta. um não assinalado pelo gesto — o dedo indicador em movimento de vai e vem. é por isso que fui apanhar uma resposta, depois de desaprender a esperar. no lugar dela, o não-dito esticado no lado de cá dos portões de aço já cadeados. e o enquadramento do olhar sobre a ponte erguida e os guardiões em vigília. do lado de lá, um sim ainda guardado — pra vestir a ansiedade minha e o ruminar do receio na sua acidez ampliada.

2008/09/06

baby:
um dia, encontrarás meus olhos vazios. com a vida apagada [e a juventude roubada]. e enxergarás apenas vãos. pois deixaste de neles se abrigar. e, neste dia, minha doçura terá deixado de existir. acabado para jamais voltar. e, tudo isso, sem notas de aviso, choros ou lamentações. e aí, baby, será tarde. será nunca. será pra sempre. um passeio sem volta. o fim da linha.

2008/09/05

baby:
agora eu sei do que são capazes fantasias e fetiches ― assim combinados. soube disso dias atrás. naquela noite em que me fiz persona. pura produção. mera projeção ― de relatos inventados [teu testemunho irreal]. o esmalte vermelho fazendo par com a vulva recém-desnudada [um fio de inocência extraído com cera quente]. a malha fria cobrindo a pele. leve cobertura da carne chamuscando por dentro. meu corpo pulsante. nascido das histórias tuas. na minha candura perdida. no vão preenchido. a persona guardada no armário. os braços dobrados para caber nas gavetas debaixo da cama. as pernas estendidas nas prateleiras. o tronco pendurado no cabide. meu desejo desmontado. a little barbie girl [esquecida].