2008/07/30

baby:
te esperei até o mofar dos morangos e o apagar das estrelas no céu — com o palco à meia luz [e o cenário montado]. as velas acesas sobre o chão de madeira, o universo apagado. fios de rosas brancas espalhados pelo soalho recém-colocado entre gotas peroladas de óleo e suor — a traçar um novo atalho para caminhos já conhecidos. a virilha lisinha. o cabelo escovado. a calcinha sobre o lençol estendido — e nem sei se iria gostar. jamais saberei. de concreto, a tua presença roubada. o fechar da cortina vermelha. a recusa polida. e um querer preterido a exaltar a cegueira recorrente. essa que prefere ignorar que o tempo foge sempre de você — e agora de mim também. ou da gente, quem sabe?

2008/07/26

marujo:
sou pequena sim. no tamanho dos pés e da alegria. na envergadura da lucidez e da heresia. pequena ao aceitar menos do que mereço. pequenina quando deveria ser grande, bravia — embora exagerada no querer [te] e no pensar [te]. nanica nas ambições capitalistas. imensa nas lamentações e nas tenções, nos devaneios e nas construções. puro gigantismo epistolar a substituir encontros de pele e espírito, falsear gozos, afogar desejos. um pequeno universo irreal. minha tenda letrada a consolidar [na folha pautada] tudo que ainda quero — ou imagino querer à custa de injeções diárias de placidez. gotículas de trapaça. sou pequena sim — desde que tua, sempre que tua [toda tua]. uma menina.

2008/07/25

baby:
se a gente fosse um do outro, eu sugeriria [hoje] mais que una pasta e cabernet sauvignon. o dia é sugestivo. pede mais. mais viagem, memória, curtição. mais cheiro de verde, paisagem, estrada de chão. mais paradas, biscoitos champanhe, roteiro na mão. leveza de vento na cara. beijo roubado, beijo bem dado, beijo balão. doces viveres, riso solto, paixão. mas isso, se a gente fosse um do outro. se a gente fosse. se a gente fosse.

2008/07/17

baby:
eu entraria no mundo teu, se pudesse. ultrapassaria fronteiras. me inundaria de ti — mesmo sem saber se vai me convidar a atravessar o espelho, pra encontrar [contigo], no lado de lá, o mesmo mais tenro e vital. gosto de me imaginar dentro desta aura mágica disfarçada de você — do entorno teu. de formatar a saudade de tudo que ainda não sei como é [ou foi]. do todo que me alucina atrás desta película turva que protege você de tudo que parece ameaçar o status quo. porque ainda quero pulsar com você. namorar tua mocidade. me perder em você. protagonizar a intimidade tua — numa terra distante daqui, onde seja possível inventar soluções fáceis e desfazer cicatrizes e torções.

2008/07/16

baby:
por que o querer precisa estar sempre condicionado à impossibilidade de poder querer? gosto tanto de parecer tua. amanhecer envolta em você. reviver o laço do abraço. prolongar o cheiro do cheiro teu no ventre meu — embora não seja possível estender um estar feliz fugaz. fazê-lo se demorar um tanto em mim. refletir em ti. se guarnecer apesar das verdades salientes [enfadonhas] tristes. meu desejo poeira. de revirar os olhos. revisitar teu saber com sabor. tua docilidade. teu tesão controlado [disfarçado] plugado no meu. queria te ter nesta noite. por mais esta noite. uma noite inteira. uma viagem inteira. uma vida inteira.

2008/07/15

baby:
já gostava de você antes mesmo de o conhecer — passear as mãos pela nuca tua, sorver teu aroma de mar, deitar o rosto no dorso teu. quando o voyeurismo era meio e fim, embora calado e depois percebido e a seguir provado [em gestos, gostos, quereres]. tua persona real no desjejum matinal. ou a encenação furtiva declarando que nada substitui o contato. o encontro corporal — e nada é mais importante que isso. o desejo tomando forma [firmando-se entre suspiros e espasmos involuntários] sem vigílias e a certeza de confundir a saudade futura com os excessos nossos e os cheiros nossos e as coreografias nossas. memorização em slow motion — pra dar a idéia de que durou mais. durou muito. durou pra sempre.

2008/07/07

baby:
pedi que a noite se estendesse. emendasse delícias de pele e alma [nossas zonas de contágio]. me lambuzasse de você ― tudo intencional. não quero reservar a outro corpo a guarda do meu corpo. a outro alguém, sussurros de êxtase, gemidos sem dono, destemperos & segredos. meu pedido natural. tua recusa real. temores encenados. exacerbados. 100% arroubo & fantasia ou a permissividade do desejo burlando envoltórios de seda, papel e marfim. uma intimidade crescente. latente. invasiva. lógica.

2008/07/01

marujo:
hoje mais do que ontem [e talvez menos do que amanhã] eu queria ser de alguém. viver alguma plenitude diferente da alegria alheia avistada da janela do quarto todos os dias. preciso dizer mais? hoje quero parecer frágil, projetar minha languidez na tua e dela extrair todo chamego do mundo ― sem precisar implorar. instituir jogos de espelhos e reter na memória meu sono velado e narrado em detalhes inventados pela tua sofisticação discursiva. nosso universo menor. a lona erguida. o palco arriado. os gemidos de fundo [nossa platéia escondida]. basta? por hoje é só. vou ao correio, me postar pra você ― sem beijos de despedida, gozos ou afagos. sem sutilezas marcadas. uma folha vazia. a blue letter.