2008/06/30

baby:
não quero deixar que o pó se acumule sobre a ausência tua. nem que a neve derreta sobre o lençol e desapareça. o encanto precisa perdurar ― pra que haja ternura, lembra? me empresta de novo a tua ternura, baby? porque a ternura não pode acabar mesmo que, de tudo isso, reste nada. é dela que extraio a leveza minha e preencho o silêncio e o pesar dentro desta coisa que chamamos vida e que nada mais é do que um monte de escolhas ― desacertadas. das quais a gente vai sempre se arrepender. cedo ou tarde. é por isso que gosto tanto de estar neste mais de dentro de você ― ou nisto que chamamos porto, em que eu finjo me agarrar [ao forjar selvagerias de lolita & doçuras de alice].

2008/06/27

baby:
gostei da gravata holandesa. das tulipas plantadas em solo vermelho. da composição formal. tua disposição social de anti-flâneur — a ocultar jogos de sedução, espichar fantasias, me desconcertar pela fina estampa. tic-tac tic-tac. contagem regressiva. tic-tac. ebulição corporal. tic-tac. o desenlaçar do nó sob o suéter acinzentado. tic. a vulnerabilidade da guarda [minha]. tac. pelo entrelaçar [nosso] — chameguento nas leituras labiais e nas lambidas sensuais encenadas em berço esplêndido. tic tic tic [tac].

2008/06/24

baby:
não estou à mercê dos teus caprichos ― nem dos meus. mesmo porque a vida tem sido má comigo. ensinado que é preciso ouvir todos os nãos e duvidar dos raros sins que ela apresenta. que o tempo meu é meu apenas, e que o tempo teu é ainda outro. que a complacência é fator visceral, e que viver não valerá a pena se os sonhos minguarem, um a um ― avalanches sentimentais preparam a guarda, enrijecem a alma para atropelos vindouros. escudos de papel que, apesar de tudo, preservam a ternura ― travestida de licença poética ou ainda uma porta entreaberta, convidativa na iminência de fechar-se [sem voltas]. um mar revolto.

2008/06/22

baby:
gostei dos cumprimentos iniciais. a democracia intencional do abraço. em nome dela, guardei o ciúme ― que não tem razão de ser, você diria, acertei? logicamente. prefira a ternura. elemento coringa. vai bem com tudo. agora eu já sei. juntei ao repositório [senti]mental ― meu caderno terapêutico. aos retalhos discursivos e às enunciações latentes. nele, reescrevo utopias lingüísticas, breves ensaios inventados ― de um viver sem dor, no qual os olhos se fecham para forjar um outro final pra nossa história [ou um recomeço sem flashes e interpelações].

2008/06/17

baby:
enquanto você estuda as mulheres, prefiro estudar as palavras ― e observar você [igualmente enigmático]. as sutilezas gestuais. a desenvoltura [meio sem jeito] do teu caminhar. os ronrons matinais. tua tristeza espelhada na minha. a aridez do encontro. nossa doçura ácida. e não tente entender ― nem a mim, nem a mulher alguma. toda mulher escapa à compreensão. foge à maestria masculina ― a objetividade sexual ― porque prefere a sedução, mais sublime, plena e instigante. estranhas liturgias a revirar sempre os mesmos enredos e esconder os mesmos encantos. porque exerce fascínio aquilo que não se pode ter. aquele que não se mostra e não se faz entender. aquela que se insinua, rebola e se recolhe a seguir. ato contínuo. e você sabe. o entendimento esvazia o encantamento. assim como o saber apaga o glamour, e a conquista suprime o desejo ― para fazê-lo brotar. vingar de novo. às vezes, igual. às vezes, mágico.

2008/06/14

baby:
tua por uma noite. na viscosidade de um bordel, na privacidade do império teu ― não importa. importa a intimidade. a vertigem nascida do friccionar de peles e pêlos. o vaivém do querer até onde o fim não exista mais e reste apenas a energia que acompanha o gozo e o gozar. nossa instância secreta ― na qual residem rituais sedutores, corpos desnudos, verdades aparentes. o amor natural ― que de tão real parece irreal. mero artifício [o realismo fantástico]. mise en scène. nossa morada. tua cobiça. meu envoltório. o não-lugar [da ética do desejo].

2008/06/10

baby:
as datas voltaram a assombrar. deixar inerte o coração — atrofiar outros órgãos e adoecer superfícies. efeito dominó. vestígios cármicos. rumores travestidos de verdades. resta, assim, a solidão enrustida e varrida por falsos moralismos cristãos. pura brutalidade a embalar eternos vazios e seus espíritos dançantes — desistentes descrentes. pois somos simulacros, fantoches, personagens de si. e é nesta refrega que ainda penso nas fantasias nossas. nos quereres mais sórdidos e nas verdades lascivas nascidas nos cenários inventados sobre vãos não preenchíveis.

2008/06/07

baby:
eu vou com você pra qualquer lugar ― no imaginário nosso e fora dele. longe ou bem perto daqui. é só me puxar pela mão. e com força. é tão difícil assim entender? admitir que sei desvendar tuas contradições corporais [e teus vacilos discursivos] porque te leio na alma ― despojado de máscaras e temores? é quando percebo que estamos a um passo da guanxuma de caio, a cidade inventada. nosso grau zero. doçura doçura. a entoar velhos mantras enquanto as mãos se procuram e se guardam no conforto uma da outra.

2008/06/03

voyeur

baby:
não sei transcrever o desejo. traduzir em discurso um querer que não se sabe real, mas carnal. filho do imaginário teu. irmão do inconsciente meu. par de idéias avulsas. declaradas em leito privado na combinação espelhada de biografias que se sabem afins — na intimidade [e fora dela], no silêncio dos dizeres vencidos, na fluidez do tempo perdido. gosto quando faz o meu jogo. costura palavras com docilidade. enaltece o sentir com provocações e sutilezas corporais — a desvelar velhos pudores e instigar novas tormentas [feito um voyeur].