2008/05/26

baby:
não peço muito da vida. espero dela, menos ainda. e você sabe. compactua das minhas verdades. destrincha as indignidades. me afronta e me lança feitiços [em doses homeopáticas]. doce veneno. tempero mental. pílulas de vento. ainda acredito que vazio com vazio se cura. porque as coisas devem ser assim. nem menos. nem mais do que isso. mesmo com meus dias sem céu. minha boca sem mel. todo desassossego. a acidez da saudade tua. os dias difíceis. o calar ressonante ― a reproduzir jogos de palavras, frases soltas, doçuras discursivas [melodias de amor de quem ainda teme ser feliz], enigmas.

2008/05/20

baby:
gosto de ser aprendiz — embora o papel não me baste [agora]. multifacetada, vivo fases de ser tua, fases de ser de outrem — e outras de ensimesmar-me, perder o prumo, endoidecer. juntar todas elas e gritar bem alto. perturbar o entorno. me travestir pra você. pura persona. lábios vermelhos. seios à mostra. unhas pintadas. ainda quero passear pelo céu da boca tua. atormentar calmarias. absorver desacertos temporais. aproximar os ponteiros e os corpos. recolher miudezas. enternecer no colo teu. cantar com chico e bethânia e colocar tudo isso no repeat. reconfigurar vozes — velhos timbres a confundir-se com gemidos e entoações roucas e melodiosas nas novas manhãs de outono [enquanto as flores de maracujá despencam dos galhos lá fora].

2008/05/19

innocence

baby:
não sei mais como obstruir a entrada tua. matar o desejo. apunhalar a saudade. esfacelar o encantamento. sepultar-te. sei que é preciso aquietar o impulso. afogar memórias feito um cão que sufoca seu osso embaixo da terra — a salvaguardar preciosidades — prevendo encontrá-lo mais tarde. envolto nas mesmas memórias. queria entender o desejo. escolher seu dono. amarrar-me ao lado dele e apenas reviver-te ao abrir o baú — e, entre cartas e postais, bilhetes e gravuras, desenterrar doces lembranças. acarinhá-las sem força ao rebobinar o enredo do que poderia ter sido e não foi. ficção sem fim. invencionices talhadas ao jeito teu. em tempos distantes. na rouquidão das noites em claro. na sordidez que todo outono prenuncia.

2008/05/09

baby:
o silêncio também enuncia. expressa mais que o recolhimento do verbo [e da voz]. assinala o impulso amordaçado e guarda, em si, o reordenamento sentimental — o luto emocional que todo final prenuncia. e é por razões como essa que me calo de tempos em tempos — apesar de você não entender. bebo copos de água com açúcar. me perco nas horas. envelheço a imaginar o flanar dos anjos. a aguardar o sinal dos tempos. uma mensagem divina. um fio de luz. um olhar. ações involuntárias a ansiar a purificação do corpo e da alma — uma nova fase branca a anunciar que o tempo não vai mais fugir de mim [nem você].