2006/10/29

my dear:
tenho agora [de volta] a vontade de espiar as pessoas na rua, mas me falta companhia, além da canina. é triste estar em “disponibilidade afetiva”. se saber solta nas noites de insônia, nos fins de semana e nos feriados. nos sábados de muito sol, nas quintas-feiras de chuvas e ventos frios, nas manhãs de domingo. feito um cão sem dono, que graça há em vagar por aí? pura estranheza. fuço [foto]grafias, releio antigos postais. revivo, resgato e, entre a graça e a desgraça, resta o silêncio de se estar só num confinamento ao sétimo andar. sábio lacan. a suplência do gozo sexual reside neste tecer textual. a branca dor da escrita. emily dickinson. fetiche[s]. de amor. entre e feche a porta. te espero. inside.

2006/10/17

honey,
adoro quando você traz a literatura para perto dos lençóis, mas não sei se tenho vocação para o oriental. kama sutra on? acho que é sincronia de dar trabalho. já basta o colar das bocas que é uma inquietação constante: será que gosta do meu beijo beijando assim? me dê motivos para não. minha mandíbula ficou gasta de tanto devorar analogias poéticas. tem horas que vem um sopro-encantamento que eu como. malhado, vermelho, violáceo, como um sonho. você estava dentro, sabia? mas a lua não era prateada, era, sim, um espelho desses de circo, deformante. ou era noite em alto mar e não soube? fico sem graça com o esquecimento. não era pilha duracell. o tour de force caiu, a força caiu, tomada desligou. próximo take: cena de beijo romântico no carro, roubado de preferência, para dar mais medo. depois um frame de um playground, em preto e branco, close up num carrossel. fecha. fim.

2006/10/14

dear:
não. não venha dizer que a solidão é prazerosa. ou que um corpo cifrado se basta sem o vaivém de duas silhuetas coladas. somos peças de um carrossel, baby. e o mover sincrônico das peças se dá pelo comando do zapping. até a pilha acabar. e é pelo movimento das peças que o desvelo da vida se dá. apague as luzes e pressione on pelo desnudamento e o deleite entre lençóis jaquard. o enigma corporal se presta à decifração, aos desejos macabros, marcados. e a vida é mais do isso. é improviso, acaso, ira, descontrole. não tenho certeza, mas sei que é. li em algum lugar. e quero te mostrar isso já.

2006/10/08

lovely dear: tenho lido as cartas de caio e me encantado de novo e ainda mais com tudo que escreveu. me flagro sorrindo. chorando. me deixando emocionar com essa lucidez invejável, de um brio transcendente. veja: 'o impulso para amar, para encontrar e conhecer e mergulhar no outro é o que nos traz para perto da vida’. não é tudo? sim, o outro é um mal necessário. talvez o mais importante. literatura, cinema, escritura e música não são levezas suficientes. preenchimento poroso. apaziguam. fazem gozar. nutrem o desejo e o desejar, mas, no fundo, são fálicas. amor é mesmo falta de QI, só pode. caio tinha razão. por isso, volto a dar as caras e te esperar em carta, em bem-querer, em promessas falsas ou falsos sussurros. procuro por amor. por quem me ame e acalme minha histeria.