2006/09/28

deary: não resisti ao schnauzer. ele invadiu a história. entrou sem pedir. fez das pautas, degraus, subiu a página e simplesmente escorregou dentro do enredo. e já veio batizado. com nome e sobrenome. coube a mim dar conta dos novos papéis. deixá-lo entrar pra abanar o rabinho e sorrir com o coração a cada vez que me vê. e os bebês são assim mesmo: se nutrem de atenção e carinho. e passam a vida retribuindo. por que acha que somos tão frágeis e carentes? não sabia que amava os cães [e as cadelas]. sabia que os cães te amavam. a exemplo de caio, que te ama sem nem mesmo te conhecer. e ele não veio ocupar lacunas. veio me dar responsabilidade. agora não estou mais só. a vida dele depende da minha, e tenho pressa. antes, tasco-lhe beijocas e lambidas. dessas de carinho, dessas de saudade, dessas de bem-querer e aflição juvenis. de que importa? au-au.

2006/09/24

honey,
a fragilidade é sempre um arroubo de primeiro grau. sem parentesco. por isso estamos no mesmo barco. mas mesmo em viagem, do outro lado ainda espiava o teu palco: a indiferença é teatral. foi logo arranjando substitutos: dentro em breve um apartamento burguês e cão schnauzer de companhia. já vejo você de meias passeando por um piso de linóleo lustrado bonito (e as patinhas e o focinho de caio logo atrás). não achou demais dar logo esse nome no cãozinho? tirou objeto do olimpo como quem tira bombril da despensa? não, não. eu nunca teria uma cadela sylvia. seria vulgar como uma vadia de esquina pintada com exagero (vermelho-rouge, batom incêndio gritante). questão de gênero. cachorros são fiéis, mas se for um amante cachorro, não vale nada. eu me rendi à fragilidade. estou de volta, embora a poesia tenha virado um recalque. muito amor. sem ciúme canino (afinal ele fica apenas com os teus ossos. e eu, com o corpo todo).

2006/09/20

deary: minha fragilidade não é artifício. e, graças à genética, não tenho mais anticorpos pra suportar tua ausência. faço poses de forte, visto armaduras, me cubro com mantos, mas, no fundo, não sei ser senão donzela. minha leveza mora ao lado da tua. e sempre que somes, ela é confiscada. se recolhe pra poupar energia. potência e gozo se ativam apenas em parceria. acha mesmo que me escondo atrás de tijolos e pedras de calcutá? pode ser. é que minha sensualidade não usa decotes, baby. nem se permite extravagâncias de femme fatale. toda graça está no esconder (para mostrar) do meu jeito catito. dos vestidos longos, das batas rendadas e dos laços no cabelo. meu bem-querer já não cabe mais dentro de mim. ainda bem que voltou. quero você. para mim. prometo sorver tua doçura de volta. e me contaminar pra te deixar burlar minha timidez num ritual que não tem hora pra acabar.

2006/09/19

honey,
estive ausente por tanto tempo. me perdoa? sim, sim, eu recebi todas suas cartinhas tão deliciosas aos olhos (e tão mais carinhosas se fossem faladas ao ouvido). que desastre o dos morangos. já os vi daquele jeito, vermelhos, murchos, cinzentos. pior de tudo foi perder o suculento por nojo e estrago. mas não é assim que você está, baby. você é que se põe numa bandeja imaginária. puro balde de água fria. vai ver por isso os dragões não conhecem o paraíso: fazem do juízo interior uma corrente. lembra dos tijolos? tijolos e pedras de calcutá. solta a sacola. se liberta na janela muito mais graciosa. em horário comercial de preferência. eu aqui, não páro de falar na morte que nem me parece negra nem suicida. essa morte me faz rir de vez em quando. faça como eu: dê risadas ébrias do que te assusta. esconjura esses demônios de mofo e verdegris. alça teu vôo ao som de mensagem mecânica: devido ao reposicionamento da aeromoça, o desembarque foi alterado. portão p. de paraíso.

te amo. no singular ou no plural.

2006/09/16

dearie: a valsa vai começar. e quero ser teu par. nesta e em todas as outras noites. me tira pra dançar e me guia, baby? quero ser cortejada, e não há mal nisso. se os instantes de leveza e deleite não têm preço e vão contra os sinais que a razão emite, por que insiste? teu olhar denuncia tua ira. efeitos subliminares. deve ser defesa da alma, esta que tua íris reflete para ser lida. esqueceu que os olhos são porta-vozes do desejo? e que o desejo viola a razão por pura sem-vergonhice? é 100% instinto. queria rebolar à toa, deixar-me encantar pelas miudezas da vida — essas que enxergamos apenas quando o desejo aflora e permite que a vida flua sem impedimentos sentimentais ou mundanos. teimo pela doçura que é conjugar nossa história no plural. e torço para que me entenda.
dear: tenho comido morangos como nunca. devorado, pra confessar. vai ver por andar farta das frutas de sempre. aquelas que costumávamos trazer da feira. a psicanálise deve explicar a escolha. seja pelo tom, pela textura, pelo sabor… mal sei do consciente, quem dirá do subconsciente? bom, só não vale creditar culpa a caio f.. enquanto os lavo na pia e retiro as folhas verdes segurando-os pelo caule, me pergunto por que mofam em vez de apodrecer. sabia que os morangos mofados existem fora da ficção? acabo de descobrir. heureca! feito nós, exibem indícios de que deixaram de estar saborosos, doces, plenos. o jeito é escolher a dedo e descartar os que já não estão convidativos. vem me tirar da bandeja antes que seja tarde. corro o risco de murchar, mofar e perder o sabor, o vigor. baci nel cuore.

2006/09/10

festividad

deary: estive lá. todo o tempo. cheguei na hora marcada. vi os sinos badalarem por ti. o céu se abrir para te saudar, e as estrelas, em comitiva, te cingirem do infinito. a noite era tua, eu sei. por isso, me despi de mim. me traí. dissimulei desejos e, sob a tutela social, me comportei feito lady. máscara e fantasia. discurso e comedimento. promessa cumprida, te contemplei de longe. do lugar que me permiti. distante do meu, do teu desejo, vivi contigo a alegria da tua conquista e pude guardar comigo a leveza do teu deleite. e hoje é pelo brilho do teu olhar que desponto para reviver (na memória e na pose do meu tecer epistolar) nossa história. quero lembrar teu sorriso faceiro, feliz, de menino sapeca, que o telão estampou. eu sou assim mesmo. tenho facetas de princesa, desejos de cinderela e sonhos de concubina.

2006/09/07

pardon

dear:
guardo a leveza como pediu. ao alcance do coração. não basta. me sinto impura, oca, sem brio. o amor foi embora. você o levou. prendeu na valise. e sei que não se pode pedir por amor. isso não se pede. você já me disse. ainda me ama? eu fiz de tudo, baby. pequenas e grandes tolices. discursivas. gestuais. não poupei declarações e promessas. exagerei nos carinhos e no tom das confissões. estava refém do desejo. cúmplice da insanidade. frágil. desplugada. 100% id. me estende a mão e me puxa? queria teu colo agora. me saber amada. velada. paparicada.

2006/09/06

dear: quero apagar a saudade. me ensina? você guarda todas as respostas. não há de falhar agora. passei borracha. mais de uma vez. não adiantou. tentei bombril também. sem resultado. o que se grava na memória poética parece mesmo nunca se apagar. é feito ruga, cicatriz. vem sem avisos e se instala. quero de volta a alegria que vem antes da saudade e o desejo de voltar a viver com a inocência romântica de que momentos felizes podem, sim, existir — mesmo que com a duração dos contos de fada: o tempo de virar as páginas. da capa à contracapa. acha que é pedir demais? não espero mais que alento e carinho.

2006/09/05

baby:
já não sei se chove lá fora. se faz sol. ou anoitece. ando mais calada do que nunca. querendo apagar o passado. adiar o futuro. dar pontapés no presente. fúria sistemática. prefiro mesmo ser ouvinte. ler e reler bilhetes e postais. doces e azedos. os que rabisquei e não postei. aqueles que conservo na memória [poética]. e você mentiu quando disse que o amor dava conta de tudo. dá não. o amor envenena. e o desejo inebria. estou refém. da tua falta de amor. verbal. virtual. carnal.