2006/08/30

gemini

dearie: esquece que somos almas afins? e que todo mascaramento entre nós vira cena de bastidores? por isso teus disfarces perdem todo sentido diante de mim. viram poeira e pólvora. se esfacelam. você sabe. então por que insiste? sou teu lado cuisine, baby. meu olhar te decodifica, e eu te leio na alma, com meu coração taurino. por isso, não há porque se desculpar. nem urano-urano mexeu tanto contigo. a inércia bateu e ficou, não é?! eu vi. senti no teu aroma e tive certeza ao lamber teus lábios. teu falo calou. e nem disfarçar você conseguiu. era impossível mesmo. quis doar minha ternura nortuna te pondo no colo. pensei que o meu amor te bastasse. mas o vazio prevaleceu. pena. me queira bem. e jogue fora esse uivo latino.

2006/08/25

honey,
eu fiz a abertura proibida e sabia que não devia ter rasgado teus envelopes lacrados. fiquei reduzido a cinzas quando meu corpo tocou outros corpos de texto e as estátuas de pedra. mas foi com a luz trepidante do teto que retomei minha calma e o gosto da minha alma. eu bem queria era não estar tão invisível aos teus olhos e nem tão distante. você tem uma recordação, eu tenho lembranças. um gozo de memória um tanto cego: enquanto você sabe como as coisas aconteceram, eu conto tudo como me lembro. não como foi. eu invento. e na ousadia, vou inventando você comigo em qualquer lugar, vou te fazendo de deusa. tenho superstição para com a alquimia do verbo [embora não possa colocar nenhum feitiço na tua palavra]. bem acredito que no lampejo eu tenha uma percepção mínima do teu desejo, mas você logo se cala e não fala sobre o assunto. então vão se formando redes, cheias de peixes coloridos, cheias de mim e de você. se tivesse me permitido te beijar, não teria me desfeito. no entanto vou me refazendo para que me desfaça de novo [e de novo e de novo] até que eu possa ser teu todo inteiro amor. eu não queria que tivesse partido e me partido em dois. com carinho vou reescrevendo histórias porque não sei descrever a aspereza da verdade [assim eu te visito melhor e te visto de mim].

2006/08/23

dear: te equivocas ao me pintar de deusa e tingir minha escritura com perfume de rosas e jasmins. não sei inventar versos e prosas. nem pôr olhos críticos sobre a tua poesia. nem roubá-la eu aprendi. me falta coragem pra muita coisa na vida. por isso insisto em me privar do sol e acabar com o sopro de vida. aos poucos. meu gozo se nutre de atitudes autopunitivas. purgativas. insanas. intempestivas. amo te ler porque a tua literatura se insinua pra mim e rebola, e eu te ouço recitando versos como quem canta uma cantiga de ninar - sussurrando. encontro paz e conforto no corpo do teu poema. por isso desejo tanto teus escritos. esses que dizes ser pra mim. és todo meu? mas eu nem te mereço, baby. não sou espelho. sou refração. desvio. armadilha. a noite deixa todos os gatos pardos. e todos os homens, lobisomens. sou apenas ternura agora. ternura noturna. me perdoe. me desvirtuei. mas meu amor ainda é teu. sempre teu. preserve o ciúme e venha calar o meu choro secreto.

2006/08/22

honey,
faz muito tempo que não [te] escrevo um poema sequer. e toda vez que tento escrevê-lo, apenas me aparecem no discurso tantas rimas pobres e sem gosto. não combinam com teu modo refinado de deitar os olhos no corpo do poema. acho que estou perdendo o gosto de escrever e me deixando ser escrito pelas minhas cartas. vê: sou todo teu. isso que envio. pode mostrar a quem quiser. minha subjetividade vira teu objeto [de decoração, de exposição], vira panfleto. nem sei se corro o risco de me tomar como grito do coração, porque boa parte do que digo é fingido [sei que separa o joio do trigo]. eu e você ficamos sempre nessa consciência múltipla de espelhos. fez bem em me enganar na última carta: a magia está na armadilha. te envio agora a única coisa que pude produzir. me perdoe se escrevi em forma de prosa, mas é porque fica muito difícil trabalhar a disposição gráfica em máquinas antigas.

em cada verso que confesso
admito que meu coração é inverso
possui um batimento avesso com o qual só converso
e para quem minto e nunca, nunca me interesso
se percebem como vida ou intenção
de quem é fingido, falando com voz de reverso
barulhento, saudosa de constelação
das palavras que apenas invento e esqueço
dentro de flores abertas como bocas-de-leão.

é tudo.

p.s. quero também pedir que não te anoiteça mais, não tão grave assim. não suporto mais tua ternura noturna, entende? é noite apenas. e estamos sozinhos.
amo você.

2006/08/20

sweet,
trinta anos sem paixão é muito tempo. os dentes ficarão amarelos, a pele dura, os seios caídos. é isso mesmo que quer? mal posso acreditar no que declara. tem certeza de que não é apenas fúria? anda escrevendo tão bem, me perfumando de palavras, me enganando. caí no teu jogo, baby, não sei mais quando escreve pra mim (ou se pensa em outro). e ainda por cima tenho ciúmes do teu amor - carona para casa depois da viagem, ligações no rio, postais. eu te cansei da intimidade? uso polo black, samba canção para dormir, arranho no francês. a análise pode ter sido uma decepção, mas sempre ajuda no final das contas. ninguém aguenta guardar tanto segredo secreto. o analista serve de descarrego. se bem que duvido que entendam de fato nossos motivos. o melhor é fazer auto-análise, pega o fio da baba do lacan e sobe direto. ou fode. ou freud. sexo também faz bem. acho que precisa de mais ousadia. faça, vá. mas sem grande expectativa de retorno (quando não se espera nada de ninguém, nunca há o risco de decepção) porque o mais importante agora é saber mudar de direção. arrume as malas, que eu te busco, te abraço e te beijo. sem choro. nem vela.

2006/08/19

portrait

baby: não quero me apaixonar de novo nos próximos 30 anos. quero é desaprender o que é amar. esquecer que isso pode existir. o desejo nos deixa frágeis demais. irracionais. vulneráveis ao sofrimento, ao choro e a todo tipo de sentimento indesejável. essa coisa de desejo, de fato, de nada serve; se presta a alimentar discursos e fórmulas psicanalíticas. nada mais. resta-me agora o despojamento. me ajuda a extrair esses conceitos dos quais me deixei impregnar? agora eu sei que não se pode ter tudo na vida. você tentou me alertar enquanto eu me fazia de surda e ensaiava poses de lolita e frases de alice. me abraça forte? mas tem que ser agora. preciso de afago e carinho. nosso affair é meu grito de socorro. estou em prantos. save me soon, dear.

open heart

e eis as novidades biográficas, honey: a primeira delas é que me dei alta. sim, fugi das sessões de análise. aquilo tudo já estava me entediando. horários, rituais, timbres vocais. e além disso, odeio “invasões alheias” e fórmulas prontas. nada contra freud ou lacan, pelo contrário. just choices, you know. e estou às voltas com uma nova casa. um verdadeiro lar doce lar. meu castelo. assim espero, apesar da descrença que me acomete de tempos em tempos. a solidão é cortante quando se quer mais do que os livros têm a oferecer. quando agendar a open house, aviso você. será algo pequeno, você me conhece. tenho pavor de multidões, gritaria e olhares invasivos.

2006/08/16

baby: now ouço pretenders. está no repeat. alterno com alanis, que me faz lembrar você (não que precise de incentivos). certo é que me cansei do grunhido da tevê 14 polegadas e que as melodias me fazem pensar e, mais, lamentar as etapas queimadas da vida. já beiro os 30, pode? e não sei o que dói mais. se as crises financeiras, existenciais ou espirituais. todas me incitam nojo e desgosto. ando amarga. seca. turva. devo ter largado o brilho e o vigor numa esquina qualquer, num dos surtos de embriaguez e descrença. pareço papel velho de carta que, ao se abrir, encarquilha e range. queria me saber amada (but i´m so unsexy). ganhar atenção sem precisar implorar. ser paparicada. saber do amor imanente não maternal. acha que meu desejo é vão? desenhei no envelope 64 beijos enormes. fique com todos pra você. a seguir lhe mando mais.

2006/08/13

dear: a vida perde mesmo toda graça quando se está só. definitivamente. qualquer atividade que não seja a leitura se perde em si mesma. perde o sabor. o viço. por isso abortei os passeios à beira da sanga, e os flertes de fim de tarde nas poltronas púrpuras do cine aurora estão cada vez mais distantes. saio tarde da cama. retorno mais tarde ainda. mal sei do clima lá fora. a maresia oxidou as aberturas. assim, deixei de abrir as venezianas e as cortinas e ainda poupo esforço depois que decidi rejeitar o sol. acendo velas e incensos e espalho copos com água pela casa. as fadas adoram. ah, voltei a ler Ana. Pessoa. Baudrillard. e velhos postais. tenho tido idéias ótimas. dessas cor de batom, sangue e esmalte. falta ânimo para encenar jogos de sedução e vertigem. sim, trata-se de enlaces de almas catitas. cheers!

2006/08/10

postal do rio j.

baby: teu alerta de nada serviu. e de nada adiantou selar o postal e confiar nos correios. de más intenções os vizinhos estão cheios, não é?! nem em tempos de guerras anunciadas uma carta demoraria tanto a chegar ao seu destino postal. desvarios alheios. desprezo um por um. quem se presta a boicotar declarações públicas de afeto e afago não merece ocupar um espacinho sequer entre mim e ti. voltei ao luto, reduto sombrio. ao interior do casco. quero virar personagem. perder o sentido. adoescer para sempre. tem um dramin? desejo não mais acordar. nem ver o sol.

silêncio rompido

dear: desci ao inferno. por isso o silêncio prolongado. demorei a voltar. tudo parecia sem volta. abismo. desencontro. “sombra e pânico”, lembra? acabo de retornar. é noite já ou ainda. estou confusa. um misto de alegria e entusiasmo, tristeza e tédio. rituais cíclicos. “já devia estar acostumada”, você deve estar se dizendo, acertei? esses dias, meses, anos me fizeram perder todo resquício de pureza. agora sei que toda imanência não passa de ficção. felicidade e o amor então? conceitos pueris. impalpáveis. mero artifício. voltemos ao início da história. me ensina a engatinhar? quero arranhar os joelhos. gargalhar com leveza. dormir com o coração em paz.