2006/07/24

postal 2

honey querida,
não acha que a guerra também é um espetáculo? quanta disposição cênica (!). eu me enchi das fantasias-clichê: desejos de medo, de destruição, de sensualidade agressiva. eu não recalco a experiência. pelo contrário: me vejo tão cheio de insubmissão e indistinção. sonhos de cavalgadura, erotismo hípico, hipódromo. meu nome outro que é felipe. (acho que não tenho princípios: prazer, real). tenho obedecido ao sexto sentido. guerra ao self. hora dos festejos. sem impulso reprimido ou moral. apenas amor, paixão (há algo de vulcânico em mim). por isso os objetos fazem exigências: armas, artifícios. perigo iminente, baby. por isso te peço: me dá afeição e perdão com a docilidade de uma mãe. sei que gosta de crianças, embora desgoste dos filhos. luta comigo, sem armistício? na cama ou na varanda, em qualquer lugar?

beirute.

2006/07/22

dear: nos aproximamos por desejo. o destino apenas cruzou os caminhos. vagamos pelos atalhos e nos esbarramos. cenas de amor e ódio. xeque-mate da vida. agora estamos fadados a não nos desvirtuar um do outro. apegos para além do bem e mal. gostou? o contrário disso seria histerismo tolo. bobagem astral. e isso não combina mais com a nossa história. nem com nossas idades.
obrigada pelo postal. amei. frente e verso. aguardo teu retorno. há muito para contar. e não esqueça o regalo que me prometeu, viu?! siga tua intuição. ela acerta sempre. faro privilegiado o seu. e guarde meu amor. para sempre. doce beijo.

2006/07/19

postalizado.

honey.
delírios, lírios e rosas nos meus dedos. desejos em cores e cordas. caixas, cartas de amor e lábios. astrolábios de viagem, margem e imagens de corpos boiando. águas calmas, farfalhar de anáguas, amargas mágoas. de tudo isso é feito o coro, o corpo, a maciez dos pêlos do amor. estou subindo rio acima. lágrimas, riscos, risos. palavras soltas, versos atados. ataúdes, prantos, enamorados. (não vou sumir. nem quero o mesmo de você).

budapeste, sem data. par avion.

2006/07/18

dear: acho lindo isso de o corpo estampar o que o coração sente. tradução literal de artifícios corporais. da próxima vez, deixe pra mim a tarefa de umedecê-lo. fricção labial e passeios de língua pela derme hão de dar conta. aposto. arrepios? só se forem de desejo e impulso. do contrário, é desperdício. energia dissipada. como chama mesmo o avesso da alma lesada, baby? descobre pra mim. e me devolva as chaves. a fórmula do nirvana só funciona entre almas afins. somos eco e espelho. teu lirismo fertiliza a minha poesia. desejos kármicos. emoções imanentes. deixe de se arrastar tanto, navegar para cada vez mais distante. teu destino está tão perto. siga o mapa do cais. a estação rima com coração. e venha buscar o teu beijo. pôr no envelope significa arriscar extravios e sumiços. eu avisei.

2006/07/17

honey,
fiquei cheio de reações depois da abertura dos envelopes: a orelha se encheu de um rubro-vivo, os lábios secaram (tive que passar a língua molhada inúmeras vezes para acalmá-los) e o coração se encheu de navios. não ligue se os postais chegaram cheios de sal, rumores de mar e vento. é maresia. batizei todos com os pés descalços na praia. e nem é clichê. se você veste a toga pelo avesso, bota fora as meias de lolita, por que eu não posso escapar do cimento e dos pisos de taco? quero logo ver de novo teu rosto, deitar meu corpo no teu colo, e sentir o cheiro de perfume novo. mitos e fantasias também mudam, logo que se mudam as coisas por dentro. muita antropologia da alma e desejos palpitantes. foi amor? espero que sim. e espero que também seja por mim. (onde é que vai ser o cais?)
beijos.

[con]fabulação

baby: a fantasia de hoje é outra. femme fatale. não duvide. unhas tingidas. mãos e pés. exagerei no vermelho. mudei o formato delas também. e o cabelo. novo corte. novo tom. curioso pra ver? tomara que goste. ainda não me acostumei. dói dar adeus à lolita que mora em mim. mas decidi mudar. in and out. e como por dentro é mais difícil, comecei pela fachada. aguardo teus postais de AMOR. sem extravios do destino. inveja alheia me causa arrepios. escreva logo, dear. quero bebericar tua poesia. antídoto envelopado contra a minha pureza catita.

2006/07/15

baile de [más]caras

dear: tenho odiado cada vez mais esta solidão acompanhada. e todas as outras. e não se trata de fobia social. ou agouro alheio. deve ser mesmo por culpa das máscaras. troquei a de princesa pela de espantalho. e não é pra isso que servem? funcionou. ao menos é o que parece. todos a minha volta se foram. e pior: parecem felizes com a situação. agora é pelos jornais que sei dos desejos e das vidas compartilhadas. dos finais felizes. esses de ficção: troca de alianças, juras de amor e promessas públicas de altar. só não dão a receita. deve pertencer a alguma seita maldita. ingresso? selar pactos com o demônio. e aí mora a incompatibilidade. você sabe. enlaces com o mal dito não são do meu feitio. prefiro mesmo me abastecer da tua doçura, baby. não demore. pode ser tarde.

2006/07/13

baby:
o jogo virou. agora é a tua vez de desvelar o meu teor. vagar pelo meu eu. estou nas tuas mãos. fantoche discursivo. persona carnal.
pus tudo no lugar. planejamento meticuloso. secular. cadeiras reservadas. ponte arriada. entre no meu castelo já. te aguardo. lingerie rendada da cor dos tapetes, das toalhas e dos lençóis. reflexo da alma. espelhos e ecos entre desejos guardados. não demore a chegar. e traga muitas juras de amor. quero gravá-las. uma a uma. na memória poética.
viver sonhos afins, champagne e poesia. fetiche sem fim.

2006/07/08

honey,
fiquei muito contente em saber de teus sonhos. tendência graciosa para o fetiche colegial? meias listradas e coloridas sempre me lembram jovens à lolita. por isso fui pego me imaginando nos teus lençóis. a pureza deve ser extrema, dessas de doer os olhos. mesmo que depois os corpos e os tecidos se encham do gozo e do suor e do desejo. intensa transpiração de corpos que movimentam o amor, fricção de corações. e também de outra coisa que não acho delicado dizer, muito embora seja lindo de fazer. (...) espero tua chegada. comprei uma garrafa de champagne e outra de pro seco. amo os dois, mas fica por tua conta escolher qual das duas vai molhar nossas bocas e discursos. achei lindo você me saber árabe. já ouvi outras coisas: turco, espanhol, egípcio, fenício. gostei mais desse último. me vi nas ânforas, atravessando o mediterrâneo numa embarcação bravia. bem o oposto do sentimento que tenho na tua escrita. gosto da delicadeza das tuas cartas, toque feminino e com ousadia. eu não. me escapo na poesia, fico dando voltas para dizer o mínimo. acho bonito, embora me pareça muito entendiante de ler. exceto para destinatários como você, que deslumbra minha alma pura e ser cor. com você não há mistério, baby. eu sou eu. você é você. em qualquer modo e sob qualquer ponto de vista.

2006/07/04

não adianta fugir. chorar pelo muito que amei e não me amaram. negar o já dito. agora sei, baby. sei do que preciso. do teu amor. que é igual a meu bálsamo. quero acordar do teu lado. flagrar teu espio zeloso enquanto finjo dormir. sentir teu calor. o sopro quente das velas acesas pelo quarto. provar que perfume vem da tua raiz árabe. ouvir você dizer que sou melhor do que eu penso ser. tenho sonhos juvenis, dear. tolos. e você está em todos eles. estou com aquelas meias listradas. rosa e lilás. verde e amarelo. rosa e lilás. verde e amarelo. coloquei pra combinar com os lençóis brancos rendados. de que cor são as fronhas hoje? vamos marcá-las no tom do gozo? só assim você vai ter certeza dos fantasmas que velam as minhas verdades. míticas. confissão? só com champanhe e exaustão. e tenho dito.

2006/07/03

honey, little honey
sinto muito pelas violetas. vai ver morreram por serem delicadas demais. doentes demais. ou suicidas. não disse que ia parar com mania de autopunição? então pare. eu tenho uma orquídea. nem sei se ela vive ou morre. não acredito que seja culpa minha. dou a atenção que tenho que dar (li outro dia que a orquídea tem algo de sexual, na china eu acho. mas não confie nessa memória de apontamento, não agora). fiquei pensando: também não está na hora de parar com os rituais místicos? coroa seu corpo, deixa teus seios nus, deita fora a túnica azulada. e nada de fadas. teu lance é ser mítica, honey. fora com os ritos e as febres. reescreva a bíblia pra você, com estilo pagão. fogo do espírito, baby. orquídea. fiquei cheio de mágoas com tua confissão. enterrou mesmo os ciúmes de mim? deu tiros bandidos e furiosos? por que me dizer isso se era meu termômetro de amor, do teu amor por mim mim mim. sem chá hoje. muito café e depeche mode.

p.s. deixa tudo como antes? te quero sempre e com o mesmo furor.

2006/07/01

dejavu

darling: não adianta mais ler caio. tomar pra si suas crenças. procurar bênção espiritual. novos rituais místicos. dar água às fadas. acender velas brancas. pôr sal grosso no banho.

a alma continua doente. febril.
sem alento. cada vez mais só.
anônima. esquecida. aflita.

te contei das violetas? não agüentaram a companhia. pereceram. uma de cada vez. ruína seriada. do resto de vida daqui, entre brasas e cinzas, galhos secos e vazios, antes do fim, um apelo: siga teu desejo. li, outro dia, que toda forma de amor vale a pena. e flerte sim. con la frida. com quem mais quiser. matei o ciúme. e o enterrei com as violetas. adeus. está na hora do chá. tintim.