2006/06/26

dear: preciso acabar com essa mania de autopunição. me deixar paparicar. e me envolver mais com os deleites carnais. vamos fazer as pazes sob os lençóis, como velhos amantes? deixar de discutir à toa e achar graça das nossas neuroses? não sei que força atua sobre o meu desejo. juro. queria ser concubina. estar no teu leito agora. lingerie rendada, diamantes e estrias. perfumar os lençóis. carimbá-los no feminino. ensaiar traços felinos. com unhas e dentes. sussurrar até a energia se esgotar. essa é a minha verdade. and ‘no more drama, baby’. desabafo espiritual. confie nele. e venha me buscar já, pangaré!
honey,
sua teimosia me desconcerta. devia ter vergonha de si mesma. ficamos cada um num canto quando poderíamos ter ficado lado a lado. me vigiou? então sabe bem que o amor só pode ser verdadeiro, sem motivos pra dúvida ou espanto. me deliciei com tua carta. você sabe fazer poesia da poesia como ninguém. a limpeza do teu cotidiano, as lacunas intencionais, teu desejo de sempre passar batom e perfume no que escreve. mas não. não leia isso como feminismo. digo de outro modo: escreve com sedução. e também se veste com. devia estar linda no domingo, pena que não pude vê-la. ainda vai pagar tributo ao velho pangaré? é preciso muito serviço de alma para amar alguém assim. complexos complexos. e pensei que fosse só uma ponta de neurose e medo. vai ver porque eu ando dormindo com sylvia. também com ana. às vezes com ambas. ménage à trois. eu adoro (de modo nenhum censure minha sensualidade taurina). preparei os lençóis. listrados. não gosto de cores lisas e cruas. brancura de lençóis ciganos.

2006/06/25

dear: preciso confessar. estive lá todo o tempo. e do alto da minha histeria, fiquei a te espiar. sem saber que reservavas pra mim aquele lugar ao lado do teu. não recebi teu recado. extravios do destino? vi que aguardavas alguém. que vigiavas com zelo a poltrona ao lado. que observavas o movimento com impaciência. estavas encantador. figurino impecável. um desperdício. eu fui de alice, do jeito que gostas. chanel 5. luvas finas. chapéu com abas fartas. laço cetim blue sky. um charme. agora sei que estava mesmo errada por achar que no jockey club terias olhos apenas para os cavalos. apostas tolas. e flertes vãos. precisamos de mais análise. terapia sistêmica. definitivamente. ou ler mais freud. lacan, quem sabe. ou administrar nossas neuroses pelo instinto. com choro, um pouco de graça e poesia. ana? sylvia? passeio com poesia tem cara de terapia. vamos? trepar pode ajudar também. mas aí prefiro no teu leito. com lençóis brancos. e muitos travesseiros.
honey,
eu perdi quando apostei na corrida. o cavalo era azarão. eu disse que estaria no jockey club no domingo. comprei tickets e whisky, como manda o figurino. poltrona c lado esquerdo. deixei reservado o teu lugar, mas nem apareceu. arrisquei número treze, como você sempre faz. e nem foi desta vez. eu acho que não sei avaliar uma boa montaria. e ainda por cima tenho medo do risco psicanalítico: gostar de cavalos e corridas quer dizer alguma coisa? o galope é puro impulso, selvageria. eu nem sou assim. o conteúdo do meu corpo é que precisa de rédeas e arreios: sou um disparo. te convido para um passeio? a cavalo, claro.
beijos.

2006/06/15

alô retroativo 2:

dearie: lembra dos quadros que montei com os mais belos trechos das tuas cartas? pois já estão faltando paredes. comecei com um cômodo. já se vão dois. nem a cuisine escapou. ganhou hoje o primeiro quadrinho. uma delicadeza. logo vou precisar de mais paredes para pendurar todas as tuas cartas. ou encontrar alternativas. quem sabe substituir uns por outros de quando em vez. ou passar a usar o teto também. pôr móbiles com teus escritos. nada de fotos. quero imagens apenas da tua poesia. recitar uma por uma e parar de contar carneirinhos nas noites de insônia. fingir que é tudo verdade. que amar nem dói tanto assim. burlar a fantasia. beijar-te de verdade e enganar as falsas declarações de amor. teu cartão chegou. apanhei das mãos do mensageiro e evitei a interceptação dos vizinhos. que lindeza, baby! a maior delas.

alô retroativo:


my dearie:
a gente é o que acha que é e o que os outros acham da gente.
nossas verdades. nossas invenções, ficções. nossos desejos. nossas frustrações.
meu riso era feliz contigo, e eu não sabia.
agora que deixou de me mandar cartas, bilhetes e postais de AMOR, tenho certeza. de verdade.
é você que amo. feliz dia dos nAMORados.

2006/06/14

honey, amor,
espero que tenha recebido meu cartão do dia doze. foi o mínimo que pude fazer. espero que tenha gostado, embora eu pense que aprecie mais as flores, rosas ou amarelas. tive medo de ser mais ousado, de arriscar mais. sabe como é o carinho. mas isso poderia ser um risco para você: tenho medo de ciúmes. sabe alguma coisa sobre touro e gêmeos? não sou afeito a signos, mas sei da tua disposição ambígua. eu sou mais espanhol: balé de toreador e batalha de touro. chifres, rasgos e capas. vermelhas. minha cor. talvez preferisse rosas vermelhas. meu elo mais adequado contigo, símbolo, metáfora. clichê? um clic apenas. e te mando uma foto de nós dois. dessas que tiro no pensamento. muitos beijos.

2006/06/06

honey, quem disse que eu sei colocar rédeas em alguém? me responde rápido. eu vivo no galope, arrancando pêlos da crina, sem saber me segurar. sou drama king. vivo dizendo a mim mesmo 'no more drama, baby', mas sigo me pintando de artista, me fazendo escritor. daí a alma fica inquieta [por força da fantasmagoria cultural?]. tem hora que as cartas mentem sim. dizem que sou imperador e tu a rainha de copas. estou mais para louco, eu e você, somos loucos de amor. para mostrar tua pose, honey, coloca tua cara na fotografia de tudo. escreve teus discursos pelos fundos do mundo, também pela porta da frente. nada de bairrismo, nada de medo. nem de nada nem de ninguém. fez bem em ignorar o trouxa [observei erro tipográfico e corrigi em seguida. não sou nem de longe artista plástico. puro apuro de imperfeição]. tua beleza é infinitamente maior, não merece coisa pouca. faça sorriso de vitória. será que não percebeu que foi trocada por uma vadia sem valor? dê-se o devido respeito, por favor. sabe que eu te amo. de verdade. fica uma de ciúmes: minhas cartas não te satisfazem?

2006/06/04

dear: tudo bem, baby. não se desculpe. não temos dívidas um com o outro. não nos cobramos. apenas doamos o que temos de melhor. um ao outro. por amor. entendo tuas razões. também não fui. tive medo de ir sem você. receio de encontrar ana e não saber o que dizer. pavor da fúria biográfica. da tietagem. da cafonice suburbana. precisava do teu glamour pra me pôr rédeas. curtas. me incutir um pouco de requinte. como me comportar diante de caio? engolir o pranto? mesmo sabendo que eles estão bem. você me diz isso sempre. as cartas dizem o mesmo. e as cartas não mentem jamais, não é mesmo? queria levar pro mundo minha pose discursiva. extrair do papel. e encobrir minha neurose com ela. ser personagem de mim mesma. adorei o poema. mas não vou mandá-lo ao trouxa não. cansei de tanto desdém. quero amar quem me ama. e receber cartas, bilhetes e postais. de AMOR. doce beijo.

deslize primeiro.

honey,
me perdoe se eu não fui à festa, me perdi nas datas, faltei com ana. também com você, que deve ser a falta mais grave. fez bem em desconfiar dos vizinhos. tenho medo de gente insuspeita, mas no entanto... falando de mim, agora, que é o que menos importa, mesmo que ocupe lugar maior na página. tenho me escutado: uma longa voz interior me acordando do transe. lado a lado vem a música, tenho ouvido muito dessas músicas que tocam ao fundo de cafés. café noir, mambo café, café del mar. e as noites vazias no castelo imperial? quanta monarquia, absolutismo, coração absoluto. li um poeminha que vai te agradar. envia num envelope em branco, sem remetente, para aquele trouxa que te encantou. junte cartões-postais europeus para simular distância:

'os homens empunham
trituradores de coração
usam crachás de nome diferente
mas pessoa igual
e vestem uniformes
de companhia de limpeza
nos quais pode-se ler nas costas:
cretino s/a
paixão ltda.'

assim mesmo, sem nada mais. não sabia que tem amores que são como diamante de vidro? tão sedutores e tão falsos. eu já estou vacinado. bem, no mais, espero tua visita que já vai na promessa do tempo. beijos carinhosos