2006/05/31

dear: quanta aflição. e por nada.
de nada adiantou desconfiar dos vizinhos.
agora entendo porque teus postais demoraram tanto a chegar. entendo o silêncio. perdôo a ausência. a distância.
a cartomante já havia me alertado. é. aquelas cartas estavam mesmo certas. e eu duvidei. não sei mais em que acreditar. sinto um vazio tão grande. uma vontade louca de encontrar meu lugar no mundo. quero deixar de desejar a histeria. dar um nó na analista. e as mãos à cartomante. reza por mim. vou dar água às fadas. recitar ana. que faz aniversário depois de amanhã. vai ter festa no céu. vamos?

2006/05/30

cartas de aniversário.

dear,
o tempo fecha, os correios fecham. quanto aguaceiro. não dava pra enviar cartas com tanta água, nem com tanta tinta borrada das borrascas de dentro. você sabe. foi pura covardia. de longe sou do tipo valente que leva as coisas na ponta da faca. o tempo de duração entre escrito é vivido por aqui é muito lento, tão demorado quando não tenho o que dizer pra você. tenho aprendido artimanhas de castor. fiz barragens para conter o choro: as saudades são tão molhadas, uma vertigem. enviei as flores que me pediu. sinto se foram tão macias quanto um fio de voz e não duraram muito, mas era o que pude fazer. espero que tenha recebido os cartões europeus e também os souvenirs do chile. acho que aprovaria. e com amor. beijos indizíveis no teu rosto & boca & corpo.

2006/05/22


dear: faz uma coisa? esquece tudo isso e guarda a leveza desse bem-querer que nos une. mesmo a distância. só isso importa agora. me manda flores na quarta-feira? qualquer uma. uma qualquer. dessas que nascem na beira da estrada. sem perfume. quero me sentir amada. voltar a receber cartas. de amor.

2006/05/18

fúria [bio]gráfica

dear: cansei dessa vida nômade. não quero mais fazer e desfazer malas. enfrentar a estrada. pôr tudo de volta no armário. queria um destino certo. pouso fixo. um castelo. um cativeiro. o que fosse. estar à deriva assim não é pra mim. você sabe. hoje vi o que não queria ver. te contei? de nada adiantou tanto fingimento. querer borrar as normas. no virtual encontrei o real que tanto temia. graças ao meu voyerismo. se arrependimento matasse... mas não me xinga. por favor. forgive me, love. precisava ver. felicidade alheia sim. os dois juntos. praça pública. entrada free. não soube dar as costas. encarei. preguei os olhos naquela imagem real, virtual, real, virtual, real, virtual. quanta felicidade. que desperdício. eles jogando fora, e o mundo querendo encontrar. odeio esnobismo. de todos os tipos. quero me desligar das biografias. mas parece que sou um ímã cartográfico. faz sentido isso? dane-se.
EU AMO AS CARTAS. as de amor em especial. sejam elas pra quem for.

cartas amadoras

honey,
que loucura é essa de encenar uma alma inquieta pela vida particular. dos outros. justificável visto que não dá para olhar para o de dentro: o que andam pensando da gente (ou sem a gente). daí vem esse interesse pelo de fora. mas você não acha dolorido ficar abrindo cartas que não te pertencem e olhando fotos em que você não está? (flash). sorrisos estampados, amor, amor. (os sons do lápis desenhado no papel fino da carta). eu te amo meu amor meu amor. textos com destinatário certo, viram pra você textos com qualquer destinatário? que medo eu tenho que minhas cartas andem por aí, por cima da tua mesa. eu te conto tudo, absolutamente tudo. não quero que ninguém mais me descubra. vou começar a escrever em código, me desnudar no enigma. apenas nosso. público. pudor. tenho sim. biografia como objeto desmontável, móbiles inventados à escolha de qualquer um que se atreva. eu te conheço, tu não me reconheces no olhar de pisa macio pela casa. o inferno só pode ser voyeur, todo mundo à descoberto em todas as intimidades (incluindo as anatômicas). ainda bem que o que escrevo não é espelho, a não ser quebrado, e sem qualquer azar. apenas para quem lê. será que ainda não se deu conta de que a vida não é de vidro? e você ainda tem coragem de me confessar esse teu nariz na vitrine alheia... transparências do mal, honey, privado, privativo. feito vaga de garagem. eu prefiro a morte dos referentes. quase pensei no absurdo de pedir que devolvesse todas minhas cartas (mas daí não fico a salvo da tua ladroagem, malícia de xerox e guardado). bem, mas fica assim. cartas, cartolas: eu, pelo menos, invento coelhos tirados da escrita. e também coloco panos nos espelhos. que se me pegassem no canto do olho, iam ver que sou vampiro. ainda amador.

2006/05/13

dear: a fantasia de hoje é uma só. a nudez. a minha. a tua. a nossa. quer conhecer a cor da minha alma? então vem. deixa de negar tanto desejo. renunciar ao medo. temer o encontro. fugir pra se esconder de si mesmo. se amarrar dentro de si. pra que tanto sadismo? ele mora nos livros. e é ali que deve ficar. com a literatura. esta que nos consome. nos embriaga. nos anestesia. burla a dor. e estanca tantas crises hemorrágicas. saudade de estar nos teus braços. quero pensar nisso agora. fingir que sou feliz.

2006/05/11


honey,
eu quis um pouco de silêncio, por isso não respondi. mas agora, que te vejo de fantasia do desejo, não há como resistir ao canto. meu olho brilha, teu coração brilha. brilhamos. faz um desenho bem colorido de nós dois. recorta, cola, me seduz. vai me embriagando de tanta bebida, me tirando a máscara, vai me tirando a vida. aquela outra, tão chata. (que é viver sem te ver. assim tão alegre e tão minha).

2006/05/10

planos desfeitos


dear:
amassei o passado.
virei a página.
colori minha vida preto e branco.
comprei pincéis. lápis de cor.
plumas. paetês. purpurinas.
é carnaval.
não duvide.
venha cantar comigo.

2006/05/07




dear: não peça o impossível.
desisti da vida. a morte me seduziu.
perdi a inocência. me prostituí. pra inventar o amor.
é na ficção que ele existe de verdade, não é?
turn on. turn off.
honey,
não me fale da solidão como quem bebe água num canto da sala, folhas de outono e memórias espalhadas. não me diga que desistiu até as raízes porque ainda vejo tua árvore intacta. tuas flores, teu tronco bravio. e sei que se não estou não é por falta. minha. (eu nem me estou. sou. apaixonado.). e de que importam as cores, se o que vejo é tão igual: coração.

2006/05/05


dear:
hoje estou só. por opção.
ancorada.
cansei de te esperar. de te amar.
com os pulsos, foi o desejo.
cortei na raiz.
quero estar só. ver de que cor é a alma.
pra pintá-la de cor de rosa. rosa e carvão.

rabisco de retorno.

honey,
não me importa o modo: no pulo, em pé, sentada, ou deitada. não importa teu jeito. importa teu corpo e o que vive dentro dele: o coração. não, você ainda não me avisou qual o risco do amor. é perigoso? eu não sei quase nada sobre, muito menos sobre a paz da qual tu me fala. sou inteiro feito de aprendiz, mais sei que para que o amor acontença, antes de tudo, é preciso haver renúncia. abandonar despretencioso de valores. meu e teu. transfusão de sangue. fusão. só assim tudo pode ser bonito e forte e saudável. quer vir comigo? então pega minha mão que eu te levo e te devoro. afasta essa docura de cartas. esquece esse lamber de tintas, de linhas que me deixa amargo. fica aqui, deste lado da página. comigo. e saiba que não é vaidade alguma te ver sangrando. eu te quero, você me quer?

2006/05/04

de honey

my dear, estou farta de tanto sangrar.
de me nausear com a vida. sentir dor.
queria a paz. sabe onde ela mora?
não a encontro. e isso parece cada vez mais difícil. essa procura. eu a perdi. hoje não posso contar nem mesmo com a doçura das tuas cartas azedas. a certeza de recebê-las é incerta. e que bom tê-las nas mãos. senti-las minhas. fetiche. devorar cada palavra. saborear teus segredos. conhecer tuas vaidades. a pose do teu lirismo. tua poesia. quero a nudez da tua alma. me seduz?

2006/05/02

correspondências > dear.

honey,
recebi hoje teus convites e charadas. creio que fica um desafio: cartas frescas e doces, seladas com beijos distantes. sem interditos, interdições. tenho medo de proibições, bem sabe disso. a intimidade parece o modo primeiro de se comunicar. desses que vão direto ao centro. enquanto tu não vem e nem aparece, os envelopes par avion ficam roçando no teu colo. sei que me demora a abrir, e também que degusta atenta o que eu digo. se eu pareço ríspido e rápido, me perdoe. eu faço tudo com a mesma medida, igual intensidade. aceito. e você? segura minha mão? seu m.

rascunhos de honey


honey,
ainda não sei o que escrever. me sinto tão morta deste outro lado da página. não sei quais censuras você pode me dar, qual intimidade deve ser o tom. mesmo que você me diga que eu posso tudo. é assim mesmo então? naturalmente literário? aguarde notícias. telegramas e cartas de fortuna.
beijos.
c.