2010/02/01

baby:
não fosse a pequenez do corpo, eu seria uma grande chata — com direito a notificações por chatice, eu sei. é possível que a paixão deixe as pessoas assim — muito no sense, fora do eixo. digo isso porque acabo de ler um texto lindo do leminski que falava de amor de um jeito inteligente, que eu não saberia reproduzir. foi quando voltei a pensar em merecimento [palavrinha plena de significação, mas sem correspondente no plano real] e que a melhor alternativa é ainda o recolhimento. somente nele consigo abraçar o silêncio e ser ainda melhor — uma pequena, simplesmente, acuada no final do jardim.

2010/01/29

marujo:
meu ciúme não é bobo — tem aquele sabor de goiabada enrolada no queijo, de tempero colhido na relva, de neném saído do banho. me fiz entender? é um refinamento simples, combinado — nada que desmereça o amor ou o faça renunciar. porque preserva a doçura, a leveza existente, aquele cuidado macio from soul mate — não é preciso temer [acelerar o motor e se adiantar no retorno pro mar]. de verdade.

2010/01/26

baby:
a vida me trouxe você — e não era pra ser diferente. porque tudo acontece no seu tempo — nunca antes, nunca depois. um roteiro clichê. entende agora a falta de efeito das despedidas — ensaiadas, forçadas, forjadas no espaço cênico? uma história assim não admite golpes emocionais — não há vilão que prevaleça ao amor.

2010/01/22

baby:
jamais pensei que fosse simples adoecer — sobretudo agora: distante de ti. nesses casos, sei o que é preciso fazer. a vida me ensinou a sobreviver — a evacuar a dor do corpo ainda febril, sacudindo o delírio e o pó. nada que umas compressas geladas não resolvam, não é?! jogo de cena seria pedir que me cuidasse macio — remetendo aquele amor bumerangue que, um dia, inventei.

2010/01/19

baby:
não queira saber como se sente uma boneca esquecida — qualquer descrição soaria menor. suspeito até que uma descida ao inferno não doesse tanto. mas preferi abraçar o silêncio a despejar palavras, numa histeria impensada — sem espantos ou melodramas mal encenados. odeio teatro amador. e as mulherem falam demais, né?! vai ver preciso aprender a dominar o privilégio, entregar a última carta e encerrar uma história que finge não ser.

2010/01/16

baby:
deixa de graça & bobagem. aquela não era minha última carta — definitivamente. e o motivo é tão óbvio: ainda há muito a ser dito [extraído — da manga, da cartola, do repertório afetivo]. eu sou da palavra — esqueceu? e não acho que elas custem caro. posso até escrever anticartas, elidir emoções e ranhuras emblemáticas, mas não deixarei de dizê-las. não se trata disso. gosto de envelopar este amor que me estremece, de me sentir cada vez mais forte diante do gelo e me impor resistência. as cartas ajudam nisso — na maturação da espécie, no exercício da espera, na recomposição emotiva. nesta noite, me deitarei sobre a grama, pra espiar o céu — porque a insônia pode ser boa.

2010/01/13

marujo:
às vezes, sinto que sobra medo — para além da ponderação. prefere as águas calmas da baía aos imprevistos em alto mar? é difícil aceitar, mas consigo entender. mesmo para um navegador experiente, encarar o oceano é sempre uma tarefa arriscada — um desbravamento. e, lá no fundo, aprendi a lidar com isso também. a entender os pés fincados no chão e o apego às escolhas que, um dia, seriam eternas — apenas não deixo transparecer. faz parte do jogo — daquela certeza tímida que ainda me faz insistir, resistir, apostar.

2010/01/10

marujo:
a renúncia é uma forma de amor — diferente de todas as outras. um exercício cênico — o gesto maior. é quando o desejo se abriga em si, contido — distante de qualquer tentação. afinal, aprendi contigo a usar força, a preferir sofrer em segredo e a me equilibrar diante do medo — sem ser engolida. e é isso que direi às pessoas, quando a verdade exigir — e eu deixar de menina ser. neste dia, a eloquência estará armada — de pé sobre esse amor que então flutuará [em paz].

2010/01/07

baby:
às vezes, acho que você entende tudo errado. eu não planejei nada, nem estabeleci prazos ou distribuí notificações — eu vivi. a proximidade. o glamour. cada minuto contigo. por isso, quis o extrato — que você me deu. o dna da vida — nosso destino. um menino. sim, el niño — um pequeno você. porque o universo merece mais [de] você — a doçura celeste, o brilho incomum, o magnetismo. mas o erro foi meu. na minha insistência molhada, desejei, só, aquela felicidade clandestina — que alguém me levou, entre as chupetas, os pirulitos e a voz inaudita [que tanto quis conhecer].

2010/01/04

baby:
eu também lamento o extravio das cartas. mas ser missivista é correr o risco — não há rascunho que recupere a palavra dita, lançada sobre o papel com tinta. escrever é improvisar, edificar o pulso e o impulso, sangrar até a vertigem — e continuar. e nem o trânsito epistolar foi preservado. roubaram-nos tudo — a atmosfera da troca, o direito de amar em segredo, o jogo das cifras. na falta de mais de mim, fique com o que salvou do amor nosso e não me lance fora — feito aquele amor atirado ao lixo, num arremesso de dar dó.